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domingo, 27 de dezembro de 2015

INSTANTE NUMERAL


O sol rumina seus últimos raios
lânguidos
sobre os velhos telhados das casas
da Rua dos Inocentes,
ventos comportados e mornos varrem
o chão de musgo da praça
sentado na varanda observo o desfile do rio
enquanto uma brisa fugitiva do jardim
acoita as rugas da minha idade
e um pássaro, em garras,
traz em suas asas o crepúsculo.

Começou o féretro da tarde.

sábado, 19 de dezembro de 2015

NÃO ACORDEM OS PÁSSAROS ( INVENÇÃO )


Depois que a noite se instalou na floresta com suas catedrais de sombras, um rebanho de ventos, coléricos, rudes e mal-educados, invadiu a serenidade do bosque e arrepiou as árvores numa imensa algaravia. Saindo do fundo de seu labirinto, na floresta, um Fauno bastante idoso, fez parar por instantes os ventos e solenemente pediu a Éolo, que os comandava. - Ó Deus dos ventos, pode continuar com suas travessuras aéreas, mas te peço, por favor, uma coisa só:
- Não acordem os pássaros!!!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

OS ESTATUTOS LIVRE DA PALAVRA-POEMA


Espero que a palavra - poema saia de seu casulo de silêncio, invente asas e viaje pelas latitudes do mundo, levando as sementes do amor e da paz espalhando-as pelas lavouras da vida e que em certos momentos se transforme em vergasta, relho impiedoso e faça zurzir, profundo, na pele daqueles que fabricam as dores do mundo. E que a palavra-poema arda tal o fogo e creste as insensibilidades dos que, com ambição e torpeza, poluem mares, rios, lagos, sufocando peixes, oleando praias e destruindo a natureza. Que a palavra- poema nasça e renasça todos os dias e combata com firmeza os que atentam com os preceitos da liberdade. Finalmente que a palavra- poema cumpra o que sua essência visceral comporta e que esteja sempre acima dos poderosos ainda que débil, ainda que morta.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

MINÍMA ODE NOTURNA


O silêncio urde
os insumos da solidão,
na varanda uma lua
acetinada em gestação
espera o sol chegar
trazendo a aurora
enquanto o tempo rebelde
regurgita as horas.

POETO PARA JUDITE


No céu dos teus
sonhos
tens sempre
a divina mania
de acender
luas.

NOTURNO

Solte essa lua pousada
na idílica paisagem do teu olhar
e deixe que ela venha, por fim,
mansa, branca e calada
iluminar o silêncio da minha noite,
E quando ela voltar aos círculos dos teus olhos,
coberta de prata, leve consigo
essa solidão que já não cabe em mim.

CANTIGA

Quando o outono chegar
e desfolhar todo o arvoredo,
e o sol desfalecer
á hora crepuscular,
apenas uma folha restará
na árvore do tempo: você
e quando o inverno vier
e destruir os últimos canteiros
ainda deixados pela primavera
uma única flor restará no jardim: você
e quando a noite chegar,
e suas sombras caiarem as ruas
fagulhas dos teus olhos
acenderão o lume da lua.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

SOB O SOL DE MANAUS

Sol amarelo e pleno na manhã de Manaus. Olho para o alto e vejo, voando em círculos,subindo e descendo os degraus do espaço, uma revoada de pássaros a inaugurar o dia. Neste instante, tive ímpeto mimético. Queria inventar asas e enrolado no sonho de Ícaro, também voar com asas oníricas. Voar, voar e como nave imaginária, puder orbitar o universo da mulher amada e pousar silente na plenitude de seu corpo. Hoje eu queria ser um pássaro e voar, voar e voar...

NOTURNAL


No silêncio da noite
os ventos bravios, em açoites,
varriam o pó das ruas
enquanto fagulhas do teu olhar
acendiam o lume da lua.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

POEMA

Abro os braços para o universo
e tocado por sonhos multíplos
colho com minhas mãos em cubas
o orvalho das estrelas
na superfície abstrata do tempo.
A noite descasca a pele das horas
tentando abortar os anos de minha idade
e na complexidade do calendário
já sinto saudade daquilo que ainda
não vivi.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

ASAS

Hoje eu queria ter um par
de asas que me permitisse
sobrevoar o mar...
sereno de minha velhice.

TOADA V


A imagem do teu corpo morno e desnudo
descansando neste leito de plumas
na penumbra e em silêncio pleno...
é fotografado pelas retinas dos meus olhos
cavos e obscenos
que prenunciam coitos óticos.

domingo, 11 de outubro de 2015

POÉTICO

As curvas do teu corpo em tempera
e o aspecto luminar dos teus olhos
em harmonia,...
habitam o universo dos meus sonhos
e fantasias.

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

POEMA CIRCUNSTANCIAL


O sol penetra na minha janela
com seus punhais de fogo,
enquanto vejo um cão sem plumas...
ladrar acintosamente contra o carteiro
que talvez traga noticias de Ju,
súbita a tarde desaba sobre mim
com a força de mil guindastes,
lá fora ouço rumores na porta
vou atender. Não vejo ninguém
apenas um vento desgarrado
a procura de seu rebanho.
Embriagado em silêncio, esmoreço,
e me deixo seduzir pela a maciez
deste sofá com desenhos japoneses
onde me refestelo leio um poema
de Fanny Mota e adormeço.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

BUSCA
Eu sou assim.
pego a noite pelo braço
sem medo e embaraço...
solto-me na rua
e busco os caminhos
de antigas luas
para ver se reencontro
as memorias de mim.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

CONTRARIANDO NELSON RODRIGUES

                                                " Toda nudez será castigada".( Nelson Rodrigues)


Na paisagem nua do teu corpo
carregas a flor do amor declarado
que a todos os pecados anistia,
na epiderme dos teus seios túmidos e castos
exibes as marcas da estação ensolarada
( motivos de sonhos e fantasias),
e tua nudez, amiga, nunca será castigada.



ENIGMAS

Na solidão da tua noite
procuro com meias palavras
decifrar os enigmas
que habitam em teu olhar.

POEMA

Nestas horas de solidão de pedra
onde o silêncio e o tedio medram.
lugar que ainda resisto
as insurgências do tempo
colho e entendo a mudez do teu grito
E no mar proceloso um barco
carregado de sonhos e memórias invade
( sem pressa e sem ruptura )
o cais noturno da minha saudade.

POEMAS

Poemas são palavras aprisionadas no cárcere dos sentimentos.

ALPINISTA

Um dia me fiz alpinista
subia e descia
escalando as escarpas eróticas
do teu corpo
e todas as vezes atingia
o cume dos meus desejos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

ESTENDAL

Dispo minhas sombras
no varal imaginário da noite,
suplico aos ventos, em açoites,
que não as dissipem,
enquanto eu nu sem o olhar da rua...
banho-me numa cascata de lua.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

SEMINAL

Na lavoura do teu corpo
a semente
do meu amor.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

QUASE VERÃO

Quase verão.
ventos quentes amornam
as vértebras do dia,
coro de pássaros ,em sinfonia,
acorda a tarde do sono...
enquanto polígonos de sol
reavivam os jardins em abandono.

domingo, 16 de agosto de 2015

FUGA

Se eu um dia pudesse
inventar-me em asas,
mesmo pássaro de voo
cego,
fugiria do tempo.


ESCALADA

O teu olhar de auroras
escalou os alpes
do meu peito esquerdo...
e atingiu direto o lugar
onde o poeta mora.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

PAISAGEM VESPERAL


A tarde se esvaindo em ocaso
O rio de águas coleante exibe
seus cardumes para o sol,...
e com minhas mãos em gestos de concha
tento coar a luz solar para irrigar
de brilho e calor os jardins solitários.
Sobre a ponte um pássaro pousado
refresca suas asas cansadas
de novas e antigas viagens
ao frescor das mansas aragens,
E tu sentada no banco da praça
(ciliada por verdes acácias )
com teus seios acintosos e belos
tentando perfurar a seda da blusa, em decote,
dobras o encantamento da paisagem

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

POEMA PARA NEIL ARMSTRONG

Numa noite de julho de 1969
saíste de tua nave de luz
e num arroubo incontido,
sob o olhar longínquo da rua
beijaste a boca encantada da lua,
e a memória dos teus passos
ficou plasmada no chão
na poeira cósmica do silêncio
e na angústia de tua solidão.

( dedicado ao saudoso astronauta e ao poeta Farias de Carvalho, ambos passeando pelo azul)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A CHUVA

A chuva desabou sobre os ombros da tarde
as solas de minhas sandálias pisavam
na umidade das calçadas degastadas,
um pássaro de asas molhadas pousado
na cabeça de uma arvore desfolhada
sem se importar com o batismo da chuva
e na sala de espera do tempo
os ponteiros dos relógios, acúleos de aço.
decapitam as horas enquanto um sol
de raios languidos tenta conter o ímpeto da chuva.
     

terça-feira, 11 de agosto de 2015

POEMA

Todas as noites
a serenidade
dos teus olhos
em sedução
penetram nos jardins
dos meus sonhos
e polinizam os gerânios
da minha excitação.

sábado, 1 de agosto de 2015

O TEMPO

O tempo é um construtor de ruinas.

O TEMPO E EU


Fujo da impertinência do tempo
tentando esconder minhas rugas
na superfície opaca dos espelhos,...
parto por caminhos soturnos e as vezes
ínvios,
cardos e urzes são os meus desafios
reciclo os meus pecados para fugir
ao holocausto das crenças,
conduzo um sol de bolso para amornar
meu corpo quando o inverno chegar
e inventei um estrela para nas noites
escuras iluminar a geografia do caminho
construir com fiapos de sol uma espada
de luz e calor para desafiar os dragões alados
guardiões e sentinelas do tempo.
Mas será que no fim da jornada sairei incólume
desta batalha?
Durmo. E no sonho uma sibila me adverte
que o tempo é implacável, que o tempo nunca perde


sexta-feira, 10 de julho de 2015

FRATURA


 Dispo minha sombra
( sem querer)
na tarde de sol e ventos
enquanto no pensamento
um poema pede para nascer

quinta-feira, 9 de julho de 2015

OCASO


No fim da tarde de verão
uma nuvem pinta de branco
o sangue do por do sol...
e neste instante nasce o poema
das asas de um pássaro mudo
que desafia em voos acrobáticos
a anatomia dos ventos

EU E O PÁSSARO ( MINICRÔNICA )


Na casa da infância havia uma gaiola aprisionando um pássaro de asas negras, peitoral branco e na cabeça um tufo vermelho vivo, que lhe dava um ar de figurinha cardinalícia. Todas as manhã eu acordava com aquele cântico trinado e plangente do pássaro, pulsando por liberdade. Havia lido num velho almanaque Capivarol, que os seres nascem livres e têm que permanecer livres. Um dia subi numa cadeira abri a gaiola e o soltei. Vi o pássaro, em voo apressado, cruzar a janela e pousar num galho de tamarindo. Olhou para trás como querendo agradecer meu gesto e em seguida, voou definitivo para a liberdade. Ninguém da casa da infância soube que fui o libertador da ave. Deste dia em diante acumulei uma profunda ojeriza por gaiolas e zoológicos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

CANTIGA DE QUASE DESALENTO


Não mais exultarei com as nuances do por do sol
e não mais pintarei meus sonhos com as cores do arrebol
não me importarei se a noite vier caiada de sombras...
nada direi se o outono despejar folhas mortas
no verde solitário das alfombras
não farei mais versos com cintilo de luas
e não mais esperarei a manhã renascer na rua,
e ainda pedirei as nuvens que não abasteçam
mais de água o orvalho da madrugada
para que a manhã renasça plena e enxuta.
Só de uma coisa não abdicarei, coisa mais sagrada:
o sublime direito de contemplar os olhos
serenos e inebriantes da mulher amada.

·

segunda-feira, 22 de junho de 2015

MINHA MÃE E EU ( MINICRÔNICA )


Fixei meus olhos na fotografia de minha mãe. Ao lado, uma mesa posta com duas maçãs e duas laranjas num prato esmaltado completa a natureza realmente morta. Súbito meu coração se abriu para receber uma velha conhecida, a saudade. Segundo o poeta, saudade é uma cicatriz que de vez em quando, percorre os labirintos do coração e do pensamento, reavivando atos e fatos antigos. É o retorno do passado. Neste momento tive um espécie de miragem. Vi minha mãe sentada ao lado de minha cama a acariciar, com suas mãos brancas e divinas, o ar dos meus cabelos. E tudo veio no pensamento. Minha infância vigiada e minha juventude orientada pelos conselhos de Estefânia. Sinto uma imensa falta dessa mulher heroína que enfrentando as adversidades da vida nos rincões perdidos da Amazônia , conseguiu criar nove filhos. Paro de reciclar saudade. Olho pela janela e vejo o verão espalhar calor e vida sobre um canteiro de margaridas e acalentar uma florada de girassóis, enquanto a memória fabrica minhas lagrimas.
Hoje fixei meus olhos na fotografia de minha mãe


domingo, 21 de junho de 2015

POEMA PARA ACORDAR A MANHÃ


( para meu filho Marcelo Augusto)

No fim deste ciclo outonal...
pedirei as horas que saiam
do mutismo numeral
e escalem as escarpas do tempo
e permita que a madrugada

( com a anuência do silêncio dos ventos )
deixe os escombros da noite passada
e prepare a ante.- sala da aurora
para que os pássaros em sinfonia
possam acordar a manhã.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

CANTIGA

Quando a noite chegar de repente
e vier encharcada de sombras
não hesitarei um instante
e com ansiedade e ousadia
irei caçar vagalumes no horto
para alumbrar nosso quarto
de sonhos e fantasias
e então habitarei o teu corpo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A FLOR

Uma flor
se afogou
num mar
de sonhos.

INVENÇÃO DE PARTIDA E DE REGRESSO


  Estes meus olhos são os mesmos que te viram partir
 quando os ventos frios e céleres paraninfavam
 o suicídio de folhas de um bosque solitário
 na manhã álgida e grisalha de outono,
 são os mesmos olhos que junto com os teus
 assistiam todos os dias o sol descambar
 para o ocaso, esmaecido e com gemidos de luz
 e que tantas vezes e se encantaram olhando
 a paisagem inebriante e cálida do teu corpo.
 Estes olhos mergulhavam no oceano do teu olhar
 para impetuosa e liricamente garimpar perolas,
 Um dia, imagino, quando retornares da caminhada
 pelas arestas estafantes do tempo e trazida pelo sol
 de verão ou num bojo azul e noturno de um estrela
 este meus olhos vão ganhar mais luz, com certeza,
 para te receber sem lagrimas e sem tristeza.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

CARTILHA

Na caligrafia de tua cartilha
decifrei o enigma do teu silêncio.

sábado, 23 de maio de 2015

A NOITE

A noite chegou sem avisar
e foi logo entrando na casa
capciosa e arbitrária inundou
o quarto de dormir e sonhar
de tedio e sombras.
Vindo da rua um vagalume
atordoado entrou na sala
e tentou iluminar o meu silêncio.

SOBRE TRISTEZA


Tristeza não é um estado de espírito sem fim/ é uma opção que gravita em nós/ e quando eu quero mando a tristeza para bem longe de mim/.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O MITO DE PÉNELOPE



O tear desfia
os finos fios de lã das rocas
urdindo a trama desejada,
com as mãos e as agulhas ágeis
Penélope faz e desfaz
o silêncio da espera.

POEMA



O pássaro plana em ultimo voo
rasando as copas dos ipês
nos estertores da tarde,
o sol-posto desbota o poente
e os ventos sopram sem alarde
coreografando o balanço das folhagens,
vindo do rio a noite invade
essa varanda de pássaros
caiada de sombras álgidas
enquanto um pedaço de lua
tenta clarear o universo das ruas
infladas de angustias e desenganos.
Sol-posto, sol morto
 eu comendo morangos.

 

O AMOR

O amor é uma viagem ao mundo onírico dos sentimentos castos.

domingo, 17 de maio de 2015

OS OLHOS

Os teus
olhos
amavios
são
afluentes
do rio
do meu
desejo.

terça-feira, 12 de maio de 2015

AEROPORTOS


Nos aeroportos
de noturnos ares
velhas aeronaves
 descansam em frota
 suas asas metálicas
  cansadas de antigas rotas
  na solidão dos hangares.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

ARAR E SEMEAR


É preciso arar todos os dias a lavoura do amor e semear a decência  para que o mundo seja melhor. É necessário que tomemos nas mãos a ética e a liberdade e saíamos pelo mundo construído um novo amanhã isento de vilania, ódio e corrupção e pleno  de virtude e esperança.   

ROTEIRO SENTIMENTAL DE PARTIDA


Se quiseres partir, parta com o sol da manhã
coloque um chapéu de sonhos em sua cabeça
calce suas velhas sandálias  de tempo
e siga pelos caminhos da primavera
leve consigo uma flor qualquer
ela conhece os caminhos das pedras
e sabe onde o amor medra.
E quando os teus pés se cansarem  de distancias
descanse sobre uma pedra e peça os pássaros do caminho
que entoem suas sinfonias dodecafônicas
para suavizar tua caminhada pelas arestas do mundo,
e se optares  pelos caminhos do mar
enfune as velas de tua barca onírica peça aos ventos
que soprem levemente para que as ondas  não maculem
o roteiro de tua viagem
e se lembre que sempre haverá um cais, um porto
onde poderás baixar as velas de tua barca,
só uma coisa te peço que, por favor, não apague
os vestígios de minhas mãos na cálida paisagem do teu corpo.



domingo, 3 de maio de 2015

CANÇÃO



Germinando no silêncio do jardim
um crisântemo espera o nascer do sol
para  abrir suas rutilas pétalas
no ar pleno da manhã que vai raiar
enquanto o sereno da noite
orvalha  um canteiro de girassóis
que continuam girando, girando
( mesmo sem a presença ainda do sol)
ao sabor dos ventos noturnos.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

COMO ABATER A TARDE COM UM POEMA


A chuva caindo molhando o ventre da cidade
O sol descambado  para o ocaso da tarde
Os pássaros de regresso a solidão dos ninhos
O rumor dos automóveis , monstros de aços,
envenenando  as ruas com seus escapamentos infames,
o tempo escravizando as horas  na arena do relógio
a vida se explicando em teoremas
e na penumbra do quarto de sonhos e fantasias
os seios da mulher amada saltando da seda da camisola
com encanto e ousadia,
enquanto a tarde em anemia profunda
morre abatida por um simples poema. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

OS POETAS

Como os pássaros os poetas nascem e morrem cantando.
 

VÁCUO



O silêncio rompendo  a inquietude da cidade
praças desertas  em dias de abandono
espantam   a celebração dos pássaros
 ruas  sombrias e esquecidas
ajudam as horas a cansar o tempo
enquanto outono  borda  o chão
com as cores das folhas caídas
meu olhar vislumbra tudo isso e segue
e esse acontecer vácuo  me persegue!

AS SOMBRAS DO OUTONO



Ontem me enrolei nas sombras do outono
esqueci que um lua velha e quase opaca
flutuava  num céu de nuvens brancas e pesadas
carregadas de águas de antigas chuvas
e tentava iluminar o território sombrio da noite,
olhei para a praça deserta  e vi velhas
acácias derramando  sementes hermafroditas
no chão de musgo e liquens nas calçadas.
Pedi  a noite que não manifestasse
os seus ludíbrios  e os seus delírios
para que a manhã renascesse luzidia e casta
nessas ruas  ruídas de poluição e desastres,
vir a madrugada molhada em orvalho surgir
encharcando a extensão da varanda
esperei  o silêncio chegar no quarto de sonhos
me enrolei nas sombras do outono e fui dormir


 

 

 

 

terça-feira, 28 de abril de 2015

O MENINO E O VELHO


Faz tempo que havia dentro deste velho
 um menino cheio de animo e que tinha o mundo como um desafio
 este menino coava o inverno quando as chuvas
 molhavam a superfície  do rio
 encantava pássaros nas manhãs plenas de verão
 colhia polens de flores para fertilizar a lavoura da tarde em floração
 E o menino pensava que as palavras poderiam mudar o mundo
 mas incorreu em enganos
 foi devorado pelo capitalismo selvagem
 esquizofrênico e desumano
 e o que restou  daquele menino cheio de esperança
 foi este velho silencioso,amargo e cansado
revolvendo  os ácidos escombros do passado.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

TRAVESSIA


Estou atravessando o rio do meu tempo
e nem sei  se conseguirei  alcançar
a outra margem
 ninguém tem certeza disso
nem mesmo a vida me dá esse crédito
mesmo assim  continuo nadando, nadando
para ver se encontro do outro lado rio
a aurora de minhas memórias.

TREM NOTURNO PARA CAUCAIA ( MINICONTO)


Um dia tive um sonho quase surrealista. Sonhei com uma mulher vestida de lua, tinha os cabelos negros como as asas da graúna e na mãos trazia uma flor amarela. Seus movimentos eram delicados e um floco de nuvens aureolava sua cabeça. Ela não andava, levitava pelas calçadas e procurava algo que não tive a percepção de saber o que era. Era uma mulher linda. Acordei sobressalto. Dias depois quando esperava o trem noturno para Caucaia, olhando a multidão que se comprimia na plataforma da estação férrea, vi, encostada a um poste de luminária , uma mulher alta, cabelos negros, tinha os olhos verdes como as águas do mar de Iracema e nas mãos conduzia mesma flor amarela. Reconheci de imediato ser a mulher do meu sonho. Era mais bonita ainda. Seu porte assemelhava-se a Ana Magnani, aliás, muito mais bonita e inebriante que atriz italiana. Vestia uma túnica com paisagens outonais e como no sonho, procurava com os olhos alguém na multidão. Quando o trem chegou houve uma correria frenetrica e os meus olhos perderam a imagem daquela mulher. Já no interior do trem a procurei em todos os vagões e não a encontrei. Sumiu. Será que tive uma alucinação momentânea? Me perguntei. Deste dia em diante nunca mais vi a mulher do meu sonho a esperar o trem noturno para Caucaia.
Contei esse fato ao meu amigo Pacheco, o português do restaurante “ O Tigre Cego”, revelando ser tudo verdade e ele com aquele sotaque alentejano me disse: - Tivesse foi uma miragem, gajo!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

CANTO RESIDUAL XI


 O sol constrói seu ocaso
enquanto a tarde
rege a opera dos pássaros.

CANTO RESIDUAL XII


No escuro desta noite
decifro com uma palavra
o enigma que habita teu olhar.

CANTO RESIDUAL XIII


Meu coração hospedeiro
vai dar asilo de ternura
ao teu coração guerrilheiro

CANTO RESIDUAL XIV


Basta um segundo
do teu sorriso
para inaugurar...
minha manhã.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

POEMA

Enquanto a noite ainda dormia
no regaço do arrebol
vi um pássaro com seu bico
de sonhos
acender o lume do sol.

METÁFORA III


Quando se fizer a última colheita
de outono na lavoura arcaica do tempo
eu te esperarei com os meus olhos ávidos de te ver,
e quando as primeiras chuvas prenunciarem
a emboscada do frigido inverno
eu te esperarei na casa da saudade
e quando chegares desses caminhos gastos
sairá de minha boca um poema
que transvertido em nave imaginária
orbitará a aureola dos teus seios castos.

domingo, 5 de abril de 2015

QUINTESSÊNCIA


Um dia o vento norte
entrará pela porta de minha casa
e me libertará do tempo de espera...
e me conduzirá sobre o ar da manhã
além do horizonte onde a primavera
nunca vai embora e o sol é apenas uma tênue
luz cortando o dorso dos rebanhos de nuvens
que cavalgam as rotas do imponderável.
Então me despirei de desejos e fantasias
térreas e orbitarei com minha nave de brumas
novas e candentes galáxias de sonhos.
 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

POR DO SOL


Nos últimos estertores
do dia
o sol pinta de ouro...
as escamas do rio
com a cumplicidade
de um coqueiro
silente e esguio.

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  • Julio Rodrigues Correia
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terça-feira, 31 de março de 2015

INVEJA

O voo do pássaro
desperta inveja
dos ventos,
ventos são aves
abstratas que queriam...
ser visíveis como águias .

POEMA QUASE CANÇÃO, QUASE SOLIDÃO

Escancaro ás janelas do meu mundo
para receber a noite com suas constelações de sombras,
um vento novo, calouro de sopro,
me traz vestígios de um poema antigo e inacabado
versos coalhados de memórias e ilusões...
perdidas nas enzimas de um tempo
em que meus olhos nunca habitaram.
Olho a cidade, esse território sem fronteiras
cujas ruas são galáxias de assombro e medo,
onde caminho meu corpo magro e vertical
pisando em musgo e liquens que parasitam as pedras.
Súbito uma brisa antiga e ligeira
espalha cinzas do passado na áspera
solidão noturna das calçadas.

QUASE


Uma lua quase morta
iluminando
uma rua quase torta...
teu olhar quase perdido
contando estrelas
na quase amplidão
num banco quase ao lado
do caramanchão,
um quase bando de vagalumes
brilhando na alfombra
e meus pés quase pisando
em minha sombra,
uma rua quase torta
iluminada
por uma lua quase morta
e meu quase silêncio
batendo em tua quase porta.

O CHÔRO

Lagrimas de miséria, indiferença e de discriminação, cuja culpa maior é a de simplesmente habitar uma pele diferente!
Chore porque Deus que te concedeu essa pele mostrará o caminho da redenção, o teu Avalon. "Quando essa tempestade passar, você será o sol".

domingo, 29 de março de 2015

CANTO RESIDUAL I

As metáforas moram
nos subúrbios
do poema.

INVENTÁRIO DE ABISMOS


Hoje não construirei o poema prometido
não poetizarei os delírios e os desencontros das ruas
pejadas de homens sem rostos ...
cada qual carregando sua cruz, sua sina.
e não sairei a colher cintílos de lua
pelos labirintos urbanos dessa cidade feminina.
Hoje não fabricarei o poema na casa dos sonhos
e deixarei que gotas de orvalho inundem
esses jardins de outono para que o dia renasça
lavado e perfumado no vértice do tempo .
E por fim, deixarei de olhar o por do sol em agonia
nas horas febris, nos estertores da tarde.
Hoje não construirei o poema prometido,
deixarei que a vida passe por mim lerda ou célere
com todo o seu conteúdo de realismo.
Hoje não haverá poema na casa dos sonhos.
Ficarei em casa. E quando a noite intensa habitar a varanda
aproveitarei o silencio das horas
para inventariar os meus abismos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

CANTIGA VESPERAL EM LAMENTO MAIOR


No ar da tarde salpicada de sol
misturo-me as cinzas das horas,
enfadado com as angústias do mundo...
nego a existência virtual do tempo
e proclamo inutilidade dos relógios.
Nas ruas onde caminho meu corpo
vertical cansado e dolorido a vida
desce os degraus da tarde
e escorre suas incidências sobre a cidade
onde o caos urbano satura e paraninfa
a esquizofrenia do transito.
Sob a solidão das marquises mendigos
rotos, encardidos e silentes
mastigam a erva de suas misérias.
Uma chuva fina e intensa traz o entardecer
e eu nesta esquina aturdido e molhado
espero a noite chegar com seus hectares
sombras para que possa esconder
os rastros dos meus pecados.

HAI-KAI

O sal das palavras
salga
o intimo das ideias.

OLHAR

Meu olhar
[ companheiro da manhã ]
vislumbra o sol em febre
fecundar roseiras
no pleno arranjo dos jardins...
e teu corpo em gestos pélvicos
na pérgola desta piscina
tenta em vão matar
a fome insaciável dos meus olhos.

AS SÍLABAS DO SILÊNCIO


Onde estão os anjos de asas de sonhos
que viriam calcinar os pecados dos homens sem
vísceras ,...
por onde andam os ventos que varreriam
as agruras e o medo dessas ruas ínvias
e os pássaros que desatariam seus cantos
nas bordas do outono?
Não chegaram aqui. Talvez estacionaram no cimo
de alguma uma galáxia sem nome,
a espera da passagem do apocalipse das horas
nas entranhas do tempo.
Chegou apenas em mim
a noite conflagrada em angustia e delírios
que avança por essa varanda escura e solitária
onde me sento todos os dias e conto estrelas
soletrando as silabas do meu silêncio

domingo, 8 de março de 2015

POEMA QUASE ERÓTICO

           

Dispo-te com meus olhos  carregados de ternura
e teu corpo, em sedução, misto de cio e ternura
desperta anseios nos meus instintos
e fico entorpecido como se ingerisse  absinto.
Dos teus olhos saltam lumes  em açoites
que iluminam os labirintos da cidade
hibernados na genitália da noite,
e minhas mãos como naves  orbitam
o universo dos teus  seios túmidos e castos
e consigo decifrar a caligrafia do amor consequente
na mansa e tépida enseada do teu ventre.
De repente acordo. Tudo foi sonho. Devaneios
Mas  sinto nas narinas o olor de rosas dos teus seios.

  

MOMENTOS VESPERAIS


As mãos em gestos prontos
não seguram o silêncio da tarde.
A varanda é apenas, agora, palco...
de cânticos de pássaros em ensaio
enquanto as horas subservientes
desbastam as moléculas do tempo
com cinzeis de instantes.
O sol pousado sobre os telhados
jorra raios em espigas na praça
deserta e as ruas ejaculam inquietações
desastres, delírios e medo
e eu sentando nesta varanda de tempo
espero a noite chegar com seu arsenal
de sombras para esconder meus pecados
e segredos ].

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Neste Dia Internacional da Mulher, quero deixar plasmado neste espaço, as minhas homenagens, primeiramente em memória de minha mãe, hoje habitante da Grande Luz, a minha mulher Judite, companheira nas planícies e nas cumeadas da vida, as mulheres de minha família, minha filha Juliana, minha irmã Aurea, sobrinhas, netas, as mulheres do FACEBOOK e finalmente a todas mulheres do mundo. E dizer que elas foram feitas com partes de coração e não de costelas.

TEUS OLHOS

Um pássaro em seu doce voar
conduz em seu bico de sonho
um fio de sol,
e tu carregas na geometria
dos teus olhos serenos...
a cor do mar.


MULHER

Mulher
com teu ventre fecundo
fabricas a humanidade.

A FLOR E A CHUVA ( MINICONTO)


Por que me molhas com tanto violência ? Se preciso apenas de uma gota tua para matar a sede de minhas raízes? Disse a flor.
- Molho-te com tanta força é porque tenho inveja do teu fado de enfeitar e perfumar o mundo, respondeu a chuva em seu discurso de inverno.
E então se calaram, enquanto a manhã se entrelaçava com a tarde.



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