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domingo, 27 de dezembro de 2015

INSTANTE NUMERAL


O sol rumina seus últimos raios
lânguidos
sobre os velhos telhados das casas
da Rua dos Inocentes,
ventos comportados e mornos varrem
o chão de musgo da praça
sentado na varanda observo o desfile do rio
enquanto uma brisa fugitiva do jardim
acoita as rugas da minha idade
e um pássaro, em garras,
traz em suas asas o crepúsculo.

Começou o féretro da tarde.

sábado, 19 de dezembro de 2015

NÃO ACORDEM OS PÁSSAROS ( INVENÇÃO )


Depois que a noite se instalou na floresta com suas catedrais de sombras, um rebanho de ventos, coléricos, rudes e mal-educados, invadiu a serenidade do bosque e arrepiou as árvores numa imensa algaravia. Saindo do fundo de seu labirinto, na floresta, um Fauno bastante idoso, fez parar por instantes os ventos e solenemente pediu a Éolo, que os comandava. - Ó Deus dos ventos, pode continuar com suas travessuras aéreas, mas te peço, por favor, uma coisa só:
- Não acordem os pássaros!!!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

OS ESTATUTOS LIVRE DA PALAVRA-POEMA


Espero que a palavra - poema saia de seu casulo de silêncio, invente asas e viaje pelas latitudes do mundo, levando as sementes do amor e da paz espalhando-as pelas lavouras da vida e que em certos momentos se transforme em vergasta, relho impiedoso e faça zurzir, profundo, na pele daqueles que fabricam as dores do mundo. E que a palavra-poema arda tal o fogo e creste as insensibilidades dos que, com ambição e torpeza, poluem mares, rios, lagos, sufocando peixes, oleando praias e destruindo a natureza. Que a palavra- poema nasça e renasça todos os dias e combata com firmeza os que atentam com os preceitos da liberdade. Finalmente que a palavra- poema cumpra o que sua essência visceral comporta e que esteja sempre acima dos poderosos ainda que débil, ainda que morta.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

MINÍMA ODE NOTURNA


O silêncio urde
os insumos da solidão,
na varanda uma lua
acetinada em gestação
espera o sol chegar
trazendo a aurora
enquanto o tempo rebelde
regurgita as horas.

POETO PARA JUDITE


No céu dos teus
sonhos
tens sempre
a divina mania
de acender
luas.

NOTURNO

Solte essa lua pousada
na idílica paisagem do teu olhar
e deixe que ela venha, por fim,
mansa, branca e calada
iluminar o silêncio da minha noite,
E quando ela voltar aos círculos dos teus olhos,
coberta de prata, leve consigo
essa solidão que já não cabe em mim.

CANTIGA

Quando o outono chegar
e desfolhar todo o arvoredo,
e o sol desfalecer
á hora crepuscular,
apenas uma folha restará
na árvore do tempo: você
e quando o inverno vier
e destruir os últimos canteiros
ainda deixados pela primavera
uma única flor restará no jardim: você
e quando a noite chegar,
e suas sombras caiarem as ruas
fagulhas dos teus olhos
acenderão o lume da lua.