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quinta-feira, 30 de junho de 2011

MAIAKOVSKI




Os versos da flauta-vértebra
reverberaram na manhã de inverno
e cortaram a cidade ao meio.
O poema atingiu os suburbios
brancos e gelados de neve
amornando as casas encharcadas
de frio
e tarde esperou a noite
para prolongar o suicídio.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

AUTO-RETRATO

Os meus olhos semi-opácos
abrigo de visões e memórias
apontam os contornos do abismo,
no meu rosto de rugas e cansaço
a reencarnação de meu pai
denuncia minha tez morena.
Escorrendo das pálpebras
o sal das lagrimas inundam
meus cilios,
enquanto minhas mãos
em gestos profanos
sacodem o pó das têmporas.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

PAISAGEM DA MEMÓRIA

Eu me lembro bem
havia um alpendre
chamuscado de sol
na casa de minha infância
onde os ventos
outonais varriam
o pó das manhãs.
Havia um sala
larga e imponente
e uma cadeira
de embalo onde meu
pai desfiava seus
projetos de grandeza
aos ouvidos de minha
avó que no silêncio
de seu tricô o ouvia
atenta e paciente,
como eram verdes
os dias na casa
de minha infância.
No útero da cozinha
minha mãe com suas
mãos brancas de candura
orquestrava almoços
e jantares sempre
com um sorriso aflorado
á boca carregada de ternura,
havia também uma lua
maiúscula que iluminava
as historias do meu avô
nas tépidas noites de verão,
ah, como eram cândidos os dias
na casa de minha infância.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A SIMETRIA DO SILÊNCIO



Me arrasto pelos caminhos empoeirados
do mundo. O tempo carrasco implacável da vida
oxida o circuito de minhas vértebras
e eu claudicante tento enfrentar os embargos do cotidiano
como um mareante enfrenta um mar
proceloso e insano,
arraigados em meu peito trago
um sol morto e uma lua naufraga
e os dias são sombrios cinzentos
sujeitos a chuvas e trovoadas
e a simetria deste silêncio
evoca lembranças remotas
cerzidas de saudades
que julguei estarem enforcadas, mortas
no patibulo dos anos.
Tento com as mãos em gestos prontos
apagar a tarde e com minha ansia apressar
a noite
para que suas sombras indefinidas
ocultem os duendes do meu delirio.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ANGÚSTIA NUMERAL


O silêncio das palavras
cala o ciclo das horas
no labirinto do relógio,
uma angústia numeral
devora os desejos explicitos
em sonhos furtivos.
A linguagem dos signos
tatuam a pele dos dias
e nas paredes do alpendre
os olhos,
perscrutam o limo do tempo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A MEDIDA DO SILÊNCIO

O poema escala as escarpas da tarde,
o sol penetrando na lavoura da cidade
semeia gerânios e anturios
ciranda de ventos outonais brincam
de desfolhar as árvores do bosque
e o silêncio em sua medida de tempo
percorre as trilhas das horas
entorpecidas pelo calor
enquanto os dias implacáveis
esculpem rugas nas latitudes
do meu rosto.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

FRAGMENTO



Depois que o sol

se perdeu no mar,

restaram apenas sombras

na cal das paredes

e o silêncio da casa

ruminando

o sal da memória.

terça-feira, 7 de junho de 2011

CANÇONETA DO DIA ( para Nydia Bonetti)






Sob o silêncio
do alpendre
as horas estatizam
o tempo.
O dia avança
sobre as latitudes
da casa
enquanto o flautim
dos pássaros
antecede a chuva.

sábado, 4 de junho de 2011

FRAGMENTOS DO CAOS




Penetro na extensão do caos
abro os braços para a noite voraz
não me engolir. O tempo inocula
nas veias da cidade ofegante
um vírus desatinado
e contamina ruas e avenidas
de delírio medo e angustia.
Saindo da vagina da noite
as horas escorrem pelas calçadas
onde os mutilados sociais
tentam enganar o sono.
Sob as sombras das marquises
soletro a linguagem do desengano
nos rostos palidos e encardidos
desses meninos e meninas
( fragamenos do caos)
indigentes dos vicios e do abandono.