segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

NOTURNO Nº 1

O vento se abate irascível
contra o velho alpendre
e macera as vertebras
da solidão.
Encolhido no lado direito
da casa o jardim
esconde flores suicidas
nas sombras dos canteiros
e a noite invade
( resoluta) os latifundios
da madrugada,
lá fora uma chuva miúda
irrompe os degraus
do silêncio e irriga
a lavoura do tempo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A CASA ONDE NASCI

A tessitura de cedro
do velho alpendre
esconde os desastres
do tempo,
paredes mal caiadas
encharcadas de vestígios
de anos e vidas
reatam o elo perdido
entre a infância e a casa,
lá fora um jardim
decomposto em ruínas,
e uma chuva fina
de estio
tenta em vão
reanimar flores
ressequidas
enquanto um vento senil
sopra o pó da memória.

LESSON CINTIA THOME

The abissal depths
word declaimed
echoes in language nitida
abstract hands
(gestures ready)
and the friction of days
confuses scars
time,
spilled on de table
the poem ignores the eyelids
the nightmare of dream.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

LIÇÃO DE CINTIA THOME

A profundeza abissal
da palavra declamada
ecoa nítida na linguagem
abstrata das mãos
(gestos prontos),
e o atrito dos dias
confunde as cicatrizes
do tempo,
derramado sobre a mesa
o poema ignora nas pálpebras
o pesadêlo do sonho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

POEMA

A noite
de ruídos
e latidos
soçobrou
ao pêso
e dominio
da chuva
torrencial.
E na plangência
do velório
havia no olhar
do morto
uma manifesta
reprovação
contra a vida.

domingo, 10 de janeiro de 2010

POEMA PARA JUDITE A AMADA

Apesar dos muitos anos
de beijos seduções e carícias
do convívio marital
ainda hoje, Judite, sinto
um frio cirúrgico percorrer
as latitudes do meu corpo
e uma pulsação acelerada
abalar a estrutura
do meu coração.
Eu sinto tudo isso, amada,
todas as vezes
que te aproximas
de mim.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FRASE

" Desenrolei de dentro do tempo a minha canção. Não tenho mais inveja das cigarras: também vou morrer cantando".

Cecília Meirelles, poeta.