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sábado, 28 de novembro de 2009

FÁBULA

Gnomos lúdicos
e profanos pintam
os cílios do arco-iris
uma estrela caída
em plena avenida
tenta em vão
acender seu lume
com centelhas
de sol.
Na gleba da tarde
faunos infames
decretam nos jardins
da cidade
a morte de rosas.

POEMA

O olhar agudo fixado
no tecido da manhã
um sol tépido
amornando a estrada
recruta pássaros
para concerto matinal
enquanto num céu
pintado de azul
o balé das gaivotas
impressiona o outono.

JANGADAS

Essas leves jangadas
sulcando imponentes
o mar do Mucuripe
são cisnes castos
cortejando ondas
bicando marés,
velas soltas
no ar de maresia
esperança de peixe
no olhar queimado
de sol do jangadeiro.
Jangadas do Mucuripe
saturadas de sol e sal
levem para alto-mar
as brisas do meu pranto.

O TREM

(para Manuel Bandeira)

Da janela do apartamento
onde moro em Fortaleza
todos os dias vejo o trem
indo e vindo levando
passageiros para Caucaia
apintando frenético
ao longo da via férrea
e todos os dias
o trem constroe
meu desejo de partir.

LEMBRANÇA

Na sala pintada de cal
uma flauta de tempo
(tocada por um pássaro)
despertava o sono
de minha vó,
no quintal o ardor
do sol de agosto
crestava as folhas
das couves-flor
da horta do meu avô
na varanda sorrisos
de crianças alegravam
o verão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

FUGA PARA FLAUTA DOCE

O cio terno das palavras
perfura o ócio do silêncio
e a noite descobre
seus encantos
no litoral dos teus lábios,
e antes que chegue a madrugada
com suas falésias de frio e orvalho
quero deixar tatuados
na paisagem morena
do teu corpo vestígios
das minhas mãos
( misto de gestos e crença),
apascentando insone
na penumbra da alcova sedosa,
tua presença.

NO METRÔ DE MADRID

Um dia no metrô de Madrid
um gitano empunhando
uma guitarra flamenca
cantou uma canção
andaluza que falava
do amor pela terra
depois pediu aos presentes
a recompensa pela canção
dei-lhe três euros
e olhei seus olhos,
seu olhar era de tristeza
e padecimentos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

LÚBRICA

A sombra da tua nudez
cálida e explicita
sobre a brancura
desses lençóis
macios e líneos
( cheirando a flores
silvestres)
incita os sentidos
e corteja orgásmos.


(A Neusa Doretto, poeta da melhor cêpa)

domingo, 15 de novembro de 2009

EPITÁFIO PARA UM POETA

Aqui estão encerradas
as vestes mortais
daquele que em vida
nunca acreditou na
vida.

ODE PARA DOUGA, A AMADA

O abrigo dos teus braços
me acolhe quando o frio
tenta congelar meus ossos
e anuviar meus olhos
e as tuas mãos tépidas
( forja de meiguice e calor)
se prestam a aquecer
meu rosto gélido
e as palavras mudas
que caem dos teus lábios
desvendam os segrêdos
dos subterrâneos do teu amor.

sábado, 14 de novembro de 2009

LEGADO

Depois da corrida dos anos
sobraram apenas em mim
restos de magoas sazonadas
estafa irremediável do corpo
cabelos inaugurados de inverno
trilhas de desencontros
e o môfo dos porões
da casa onde nasci.
Na varanda da memória
restou indelévelmente
a velha flauta do meu avô
que tirava do pó do tempo
a nota exata da canção
que nos embalava
nas noites de verão.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MINÍMO NOTURNO PARA A CASA


Ao lado da praça
a casa dorme
no silêncio tumular
de seus porões
na penumbra
saturada de tempo
de seus corredores
na arquitetura
de suas janelas
e na recordação
de seus mortos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

NOTURNO PARA OBOÉ

Os embriões da noite
ressuscitam o pêndulo
do relógio,
as horas tépidas
se arrastam
como reptéis
pela circunferência
do tempo
ao longe um toque
de um oboé
põe em fuga
valsas e sonatas,
lá fora as ruas
colecionam caos
enquanto nas periférias
a miséria paraninfa
suicídios.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

QUASE HAICAI PARA BONO, O CÃO

O latido do cão em lá maior
desonera o silêncio
e humaniza a noite.

ESCULTURA

Os anos andam marcando
no meu rosto adusto
essas sendas indesejáveis
( rugas & flacidez)
e na arquitetura do tempo
esculpem na minha pele,
a escultura da velhice.

domingo, 8 de novembro de 2009

QUASE HAICAI

quando recito poemas de nydia
as manhãs se enchem de pássaros
e esqueço (da vida)as perfidias.

sábado, 7 de novembro de 2009

ODE MINÍMA

As palavras
revelam segredos
da tarde
que não resiste
ao assédio
do crêpusculo
( o tédio das ruas
assume seus ludíbrios)
e em pouco espaço
( réstia de tempo)
as cinzas das horas
cristalizam as sombras
da noite.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

EXERCICIO

No sono da tarde,
escorrem pela memória
miragens e pesadêlos,
agarrado a velhos silêncios
minhas mãos em gestos
abstratos tecem
costuras de ocasos
e a palavra muda
prescreve o abandono
das pálpebras.

PAISAGEM DA MEMÓRIA

Os olhos da memória
de criança-menino
viam sempre
as mesmas coisas,
casas meia-águas
circundando a praça
a mata ciliar
sobreando o regato
os carros de boi
rangendo suas dores
na árida e absurda
inclinação da ladeira
as mulheres beatas
acendendo velas
no pátio da igreja
e um bando de meninos
inconsequentes
atirando pedras
nas mangueiras
no interior da casa
o sal do tempo
conservava a fotografia
dos mortos.