Páginas

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

INDÍCIO DE OCASO


As sombras da tarde
envolvem o meu silêncio,
o tempo rateia com as horas
a solidão do relógio
na calmaria do mar
um pássaro de bico
adunco em vôo rasante
fere a pele das ondas
e os meus olhos ávidos
de paisagem
se perdem na policromia
do horizonte.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TOCATA MATINAL EM SI BEMOL



Sigo as trilhas desta manhã
tecendo costuras de sol.
O vento abre suas asas
imaginárias e varre minha
sombra nas calçadas,
uma nuvem em chuvísco
molha minhas palavras
e fico calado observando
o sudário de angústias
das ruas ínvias da cidade
em pânico.
Nas praças onde os velhos
descansam e mastigam
as ervas de suas idades
a arquitetura do silêncio
ergue castelos de memórias
e sono
e no arvoredo desfolhado
a canção dos pássaros, em coro,
celebra a inauguração do outono.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DE MIM

O melhor de mim
ficou nos degraus
da infância
na idade adulta
os empecilhos
frustraram
meus planos
sobraram
residuos
de uma
canção
de ninar
e o tempo
enrugando
minha pele.

sábado, 22 de janeiro de 2011

CINCO EXERCÍCIOS PARA MEDITAÇÃO

I

É proibido chorar
no muro
das lamentações.

II

O tempo
corre pelo
corpo
e mata
os cabelos.
III

Ter ou ter
eis a razão
do poder.

IV

O espelho
xerocopia
as rugas
e desnuda
a idade.

V

A palavra
é fogo
é chama
arde
queima
inflama.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

CRÔNICA POÉTICA DA CASA RESTAURADA

A casa já não mais reflete
as peripécias do passado
inovaram suas estruturas físicas
trocaram seus caibros de cedro
por frias vigas de cimento armado,
invadiram a arquitetura dos quartos
e expulsaram os fantasmas da infância
que povoavam os velhos armários,
foram além: ladrilharam os corredores
e arrancaram-lhe o alpendre
que em noites de verão as estrelas
debutavam sob o fascinio do luar
e não respeitaram sua história,
deixaram apenas, incolume,
o velho quintal, em árvores,
como resposta a minha ânsia
de memória.

domingo, 16 de janeiro de 2011

SILENCIAL


Uma chuva copiosa
tenta lavar em vão
os meus pecados,
a noite com seu
repertório de sombras
invade os hectares
da cidade,
parida do silêncio
a insônia me convida
ao alpendre
e na parede caiada
da velha casa
o tempo brune o relógio
e o pó das horas embota
os labirintos da memória.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

NOTURNO

Do alpendre vejo o cais
assisto navios em fuga
e a tarde desabar sobre
o rio,
vejo a noite chegar e abrir
seus latifundios de mistério
para a passagem das sombras
uma lua em pedaço
tenta iluminar a solidão
da rua
e um rebanho de nuvens
pasta tranquilo num céu
claro de agosto,
o vento abre suas asas
noturnas e inquieta
o arvoredo varrendo
o silêncio da praça.

sábado, 8 de janeiro de 2011

VISITA AO CAMPO SANTO

Caminho pelas alamedas solitárias
do campo santo de Manaus
ao reencontro dos meus mortos,
lápides, arvores e um céu cinzento
compõe a arquitetura de solidão
enquanto as sombras dos ciprestes
perenizam o silêncio.