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terça-feira, 31 de março de 2009

NOTURNO QUASE CANÇÃO

Eis-me aqui
na esquina da noite
tentando decifrar os enigmas
que a vida me ofertou.
A cidade me assombra
com seus mistérios de centauros
centauros pretos
centauros brancos
que comeram á memória
e ruminaram a tragédia.
Eis-me aqui
tentando traçar roteiros
que nunca seguirei,
venho de sonhos frustrados
e caminhos gastos
aprisionei o átomo
e o lançarei contra o mundo.
Nesta esquina um dia
tive amigos,
poetas boêmios
seresteiros malditos
que cantaram comigo a canção
de cristal de um tempo
que nunca habitei.
Hoje nesta esquina
estou só
apenas esses bancos
na calçada
esperam meus mortos
que hão de chegar
para sentir comigo
esses residuos de dores
e de saudades.

INVENÇÃO PARA TUA VOLTA

Chegaste do vôo noturno
pelas arestas estafantes
do tempo,
chegaste montando
um cometa
e nas mãos trouxeste
uma estrela sem brilho.
Teu cometa pousou
suavemente
nesta praia de cinzas
densa de sonhos de crustáceos
e gemidos de vagas
chegaste e meu sonho maduro
de espera se realizou
já não preciso mais dele
estais aqui.
Agora amiga e amor
arranca a cauda do cometa
e acede o lume da estrela
e deixa que ela reencontre
o caminho da volta
ajeito o cometa
e deixa-o seguir
não precisarás mais dele
estais nos meus braços
não te deixarei partir.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM



( a amada e o poeta num bistrô na Saint Honoré, Paris/Fr.)

ERÓTICA

Quero viajar numa
nave imaginária
romper os limites
da angústia
e transvertido
em astronauta
do sonho
circundar a lua
encalhada
nos teus lábios,
orbitar o universo
dos teus olhos
voejar as galáxias
do teu corpo
morno e moreno
e me perder
no quasar
do teu sexo.

POETA E DIVULGADOR



Este é o poeta Soares Feitosa, um dos maiores do nordeste. Soares é cearense e tem uma produção literária bastante volumosa. E é também divulgador da poesia luso-brasileira, através da edição do conhecido Jornal de Poesia, onde estão contidos em suas páginas mais de 3.000 poetas de todos os estados brasileiros e do exterior. Um homem voltado para a literatura e para ás artes da nação brasileira. Soares reside em Fortaleza. A literatura, em particular a poesia brasileira ,lhe deve muito.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM



( poeta e a amada no auto-car tendo como fundo a pirâmide do museu do Louvre,Paris/ Fr)

CORRIDA DE TOUROS



Os olhos do miúra de três olhos
se abate sobre a arena da tarde
e os olhos cúbicos da mulher
na platéia desfaçam o mêdo
do embate,
homem e touro se miram
(0lhares de fôgo e indecisão)
de repente um grito de olé
ressoa no instante decisivo
prenuncia que a morte chegou
e o toureiro vestido de sol
espada na mão (esguio e altivo)
celebra a multidão inquieta
e ávida de sangue.

( poesia dedicada a Pablo Picasso, que gostava de touradas , pintava touros de três olhos e mulheres cúbicas),

APARIÇÃO

Me apareceste
lindas de seus eretos
e ancas fornidas,
por duas vezes
fomos barcos
buscando rotas
estranhas no ventre
absconso das noites
simétricas.

Um dia fui macho
ávido de ti
e tu foste
égua bípede
de encantos.

A TEIA




A teia
a tela.
A fina teia
a fina tela
a teia atrela
a tela.

Saindo
do silêncio
a aranha
modela.

POEMA

O sol deflorou a tarde
e esta antes de morrer
pariu a rosa.
Rosa cor de rosa
pétalas urdidas
de sonhos e auroras,
atirem pedras nos cães
ou nos homens sem Deus
mas por favor,
não maculem a rosa.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM


( a amada,o poeta, Marcos e Jacira Bonetti na famosa pastelaria de Belém, em Lisbôa,Portugal)

segunda-feira, 30 de março de 2009

O POETA

O poeta Zeca Nelson caminha pela rua de Isac Peres. Caminha ereto como um príncipe etíope, elegante como um esquema de Brumel, sutil como o desabrochar de uma rosa no dorso virgem da manhã. O poeta segue pela margem esquerda da rua de Isaac Peres, com suas botas de tempo e com sua túnica inconsutíl de auroras.
Ao caminhar o poeta traça seu mapa de esperança pela rua de Isaac Peres, perseguindo arco - íris, garimpando nuvens e mijando poesia.
Sua voz pejada de silêncio não fere a pele do vento que sopra suavemente seu rosto mas, quebra o encanto das pedras da rua de Isaac Peres. Nem os latidos dos cães no cio, demovem o poeta de sua caminhada em busca da ante- manhã, seu Avalon.
O poeta Zeca Nelson caminha...
( homenagem ao poeta José Nelsonm hoje habitante da Grande Luz. Figura que foi estimada por todos da cidade de Itacoatiara-Am.) Publicado no meu livro " Crônicas Sem Tempo".

domingo, 29 de março de 2009

FUNDAÇÃO DO CLUBE DA MADRUGADA


( membros do Clube da Madrugada de Manaus na década de 60.Vemos em primeiro plano o poeta e prosador Luis Ruas, contista Aluisio Sampaio e no fundo aparecem Lulu Cabral e o poeta Jorge Tufic. Dos que aparecem na foto apenas o poeta Jorge Tufic está vivo e produzindo muito. Reside em Fortaleza,Ce, há três décadas.)

Os sinos da igreja São Sebastião anunciavam novo dia
vozes ao longo da praça
espalhavam pelo ar gélido
poemas urdidos de amor e paixão.

A lua no seu sólio argênteo
jorrava luminescências
de seu denso brilho
banhando de prata
a poeira das ruas
eivando de ilusão
a noite dos boêmios.

Um grito eclodiu no ar: madrugada!
E todos gritaram na noite fria
unidos: madrugada! Madrugada!
A madrugada surgia lentamente
molhando de orvalho ás flores olentes
dos jardins ávidos de luz de lua.

( publiquei este poema no extinto" O Jornal," quando da fundação do clube. O CM foi fundado na Praça da Policia no centro de Manaus).

INSTÂNTANEO DE VIAGEM


( O poeta a amada e o sobrinho Marcos Bonetti, no complexo
da Torre Eiffel

MINÍMA ELEGIA



( para poeta Farias de Carvalho (foto) in memorian)


Como um sonho furtivo
tua vida se foi, irmão,
soprada pelas brisas
mornas das tardes
verânicas
que tanto amavas.

Agora, amantissimo irmão,
( investido em silêncio)
enfunas as bujarronas
do teu barco de ocasos
e veleja pelos mares celestiais
em busca do teu
pássaro de cinzas.

( o poeta publicou dois livros germinais, Cartilha do Bem Viver com Lições de Bem Amar e Pássaro de Cinzas. Um dos maiores poeta da Amazonia e Cavaleiro de Todas as Madrugadas do Mundo).

sexta-feira, 27 de março de 2009

RELEMBRANDO OS GÊNIOS


( Este da foto é o poeta Ricardo Eliecer Neftali Reyes Basoalto ou simplesmente Pablo Neruda. Chileno de Parral, já falecido escreveu uma obra intensa dentre elas A Barcarola,Coração Amarelo, Crepusculário, Cem Sonetos de Amor, Elegia, Jardim de Inverno, Livro das Perguntas,
Residência na Terra,, Confesso que Vivi. Já bastante doente escreveu seu ultimo livro, em 1973, ano que faleceu, O Mar e os Sinos conhecido como Últimos Poemas. Em 1971, isto é, dois anos antes de sua extinção o poeta Neruda recebeu o Prêmio Nobre de Literatura. Neruda foi um gênio da poesia universal.

A L E R T A

Nenhuma lua iluminará
o caminho a ser palmilhado
pelos teus pés.


A noite de sonhos
despertará o cantar
dos pássaros
que acolherão
a plena manhã
rompendo nos quintais.


Teus passos , amiga,
incendiarão
as pedras e urzes
das sendas á fora
aonde vagarás
no colo
de insensatas
auroras.

OUTONAL





O sol deflora
os gerânios
dos jardins
da cidade.
Raios tépidos
crucificam
a tarde.
Cheiro de outono
nas ruas e becos,
no céu o baile
das nuvens
encanta
os transeuntes.

AMOR COM CHUVA

Te respiro no ar
desta manhã
onde a chuva
inunda canteiros
e provoca holocausto
de rosas,
mas tua imagem
airosa
(discreta na memória)
incendeia o frio
que traz essa manhã
chuvosa.

quinta-feira, 26 de março de 2009

RELEMBRANDO OS GÊNIOS



Esta foto é de Ernest Hemingway, escritor morto em 1961( suicidou-se) autor dos livros, Adeus ás Armas, Morte na Tarde, As Colinas Verdes da Africa, Por Que os Sinos Dobram, O Velho e o
Mar, O Sol Também se Levanta e outros. Hemingway era americano e em 1961 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Viveu por muitos anos em Cuba. Ele foi um gênio da literatura universal.

POEMA QUASE CRÔNICA PARA PARÍS


(Paisagem parisiense: passeio no Sena)
Abro os olhos
na manhã
clara de París.
Da janela vejo
o Sena
se espreguiçando
sob a ponte de Alexandre III
penetrando o útero
da cidade
fertilizando-a com brisas
gélidas.
Essa cidade se traduz
por palavras livres
pela história
e pela a essência
libertária que legou
ao mundo.
Na Praça da Concordia
homens mulheres e meninos
com o sol nos braços
gesticulam e posam
para fotos
pisando distraídas
a memória indelevel
dos revolucionários
por um instante
penso em Marat
e Danton
(corifeus da liberdade).
Tento arquitetar um poema
e me debruço sobre a lavoura
das silábas
soldo palavras
mas o poema me custa
París é maior
que o meu poema
París é maior
que todos os poemas,
desisto e me extasio
agora com o Sena
escorrendo livre, solto
historico e resoluto
pelo canal de San Martin
coberto por um sol
de céu azul
onde a tepidez do verão
amorna as ruas, praças
a avenidas
transmitindo uma vontade
imensa de se viver...
París é um imenso poema
completo , belo
essencial.
Paris,Fr, 19.09-2008.

quarta-feira, 25 de março de 2009

ONANISMO

Na parede um poster
de uma mulher nua
domina toda a sala,

E o menino olhando
a figura
suspira.

De repente
mãos infantís
bailam aceleradas
o ritmo do sexo.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM


(O poeta e amada num bistrô na Gran Via, em Madri)

segunda-feira, 23 de março de 2009

ELEGIA PARA H.DOBAL




(Este poema é dedicado á memória do poeta piauense H.Dobal( foto), um dos maiores do universo poético brasileiro, falecido em 2008. Guimarães Rosa dizia que as pessoas não morrem se encantam. Certamente Dobal está encantado. Em seus poemas ele falava de cavalos, fazenda, gado, rios, cidades ,tempo e de pessôas)



Os teus cavalos da noite
soltando brasas
dos cascos de fôgo
continuarão cavalgando
solos ásperos
crestados pelo sol
do nordeste
sempre em busca
de infinitas manhãs.

As tuas cidades masculinas
alicerçadas nas lembranças
se perpetuarão
egoísticamente
exibindo a imponência
dos seus arranha - céus
a arrogância do marmóre
e a petulancia
de suas arquiteturas.

O tempo consequente
jamais apagará da pele
dos dias,
a saga de fazendas e gado
e o ritmo avassalador
dos rios do Piauí
abrindo sulcos na terra
e nos desvãos
da memória.

E o poeta de olhos polídos
e míope de distância?
Este as walquirias desceram
e o levaram em barco
de brumas
para alé do arco-íris
( gleba dos ausentes)
onde medram
em campos de margaridas
as ervas do silêncio.

(Fortaleza, Ce 19.o9.2008)

REMINISCÊNCIA DE VIAGEM


( O poeta e amada na Champs Elysées, tendo como fundo o Arco do Triunfo)

NOTURNO

A noite desposa seus cansaços
na esteira da rua plúmbea
e rumina as aguras do tempo.
Poeta noturnos
pisam calçadas de nuvens
e inventam cançõeos de mar,
entre a canção e o tédio
há um abismo neutro.

Existe em tudo solidão
amarga e solene
que vem das casas
encharcadas de tempo
de vidas passadas
desta bairro soturno.

As palavras se calam
no ventre da garganta
e levantam andaimes
de sonhos
para a construção
do poema noturno.

domingo, 22 de março de 2009

EPIGRAMA

Na praça sob o sol da manhã
uma reunião de politicos.
Do alto de um edifício
um abutre solitário
( de olhar atento
e nariz sensivel)
observa.

REMINISCÊNCIA DE VIAGEM


( O poeta e a amada em frente ao Lido na Champs Elysées)

quarta-feira, 18 de março de 2009


( o poeta e a amada num bistrô na Champs Elysées, em Paris)

POEMA CIRCUNSTÂNCIAL

Hoje vou sair pelas ruas da cidade
e pavimentar de esperança
o chão adusto dos meus passos
e o vento há de se aquecer
na chama do amor que levarei
nas mãos.
Hoje vou sair pelos guetos urbanos
lavar de otimismo a antemanhã
dos meninos pobres favelados
que ruminam na solidão
de encardidos barracos
o grito de suas dores
e de suas misérias.
Hoje vou sair pelas esquinas da cidade
e reinventar um novo Messias
para expulsar do templo da vida
aqueles que fabricam as dores
do mundo
e em cada jardim plantarei
uma árvore,
depois cantarei com os pássaros
o aparecimento da grande manhã.
Hoje vou sair...

POEMA DE SOLIDÃO

Neste quarto gasto de teias de aranhas
que reparto com a solidão e o sono
velejo minha barca azul de sonhos
segurando o leme quimérico da aventura.
As velas se inflam na crina do vento
percorro todas as noites as dimensões celestes,
todas as noite me conduzo á lua
conte mil vezes os passos de Aldrin.
Quando a insônia me fere entre essas frias
quatro paredes pétreas e vetustas
procuro construir as raizes do sono
comas fibras sublime da esperança
esperança que há de se realizar ampla e liberta
neste quarto gasto de teias de aranhas.

POEMA PARA LIBERDAD LAMARQUE



(a grande cantante argentina Liberdad Lamarque)

O teu canto, Liberdad,

há de se transformar em girassol

que continuará girando

quandos os cristais

dos teus olhos

forem se quebrando

e a tua voz

se fizer eternidade.

MEDITAÇÃO

Na tarde o olhar perdido no infinito
mãos rígidas e nuas silenciam gestos
e não posso compor a pirâmide de sonhos
da janela do meu quarto.
Pássaros não se aproximam da arena
onde resinas saturadas de tempo
queimam as células da minha idade
conduzindo-me ao abismo da velhice.
Que direi aos outros quando chegarem?
Direi que a noite veio sem a lua
e que a rosa morreu sem aroma e cor
por fim direi, sem mêdo de censura,
que multipliquei por mil os meus pecados
pensando nos seios da mulher amada.

RESUMO DE MIM

Apenas os olhos
lobrigando o caos
a boca aberta
preambulando
o grito das dores
do mundo.

O corpo saturado
pelas contendas
dos dias vividos
faz-me refém
das amarguras
da vida
e dentro de mim
um negro exaltado
exige alforria.

CREPÚSCULO

Rubem Alves, em artigo para a Folha de São Paulo, assim se manifestou sobre a recente mania de chamar a velhice de "melhor idade": " Deve ter sido um demônio zombeteiro disfarçado de anjo que inventou que a velhice é a "melhor idade". Chamar a velhice de "melhor idade" só pode ser gozação ou ironia". E assim, encerrou o texto intitulado "A pior idade", dizendo: " Sugiro um nome diferente para essa idade, que não é ironia, mas poesia: " Pessoas portadoras de crepúsculo no seu olhar...". Só mesmo com muita poesia...

( Extraido da Coluna de Regina Marshall, no Diario do Nordeste, Fortaleza -Ce).

MINORAR AS DESPESAS PÚBLICAS

A única atitude certa tomada pela Câmara Federal, no ano que passou, foi indubitavelmente, a que não promulgou lei oriunda do Senado que aumenta o número de vereadores nos parlamentos municipais. Os senadores deveriam votar leis que diminuam a quantidade de vereadores, deputados federais e deputados estaduais no ensejo de minorar as despesas públicas. Há um clamor geral quanto a carga tributária nacional que é realmente estratósferica, entrentanto, sem ela como o estado brasileiro poderia sustentar os vencimentos desses parasitas institucionais?

ALBUM DE FAMILIA

O album guarda vestígios
de anos e lembranças
onde a mudez dos olhos
agua a lavoura de silêncios
das fotografias.
Sombras dos antepassados
coalhadas no visgo do tempo
restos virtuais de vida
aprisionadas entre o ácido
e o papel.
O sal da memória
desbota o verniz
das palavras
e permanecemos calados, mudos
enquanto os mortos nos olham
e acenam com seus
chapéus de névoa.

segunda-feira, 16 de março de 2009


O poeta e a amada em frente a Catedral de Notre Dame,em París.

EPIGRAMA

Uma noite em París embaixo da Torre Eiffel
vi uma mulher africana de vestes rotas
( com um filho no colo)
e em gestos estranhos quase obscenos
maldizer turistas que não lhe davam esmolas.


Enquanto isso eu
(um suburbano sulamericano)
exultava com as luzes da torre.

EPIGRAMA ( Para o poeta Affonso Romano de Sant"anna)

Estou diante de um poema de Mário Quintana
um poema lúcido como se ele
estivesse para morrer, diria Pessôa.

Um poema sensivel e belo
como Quintana gostava de tecer.

Estou diante de um poema de Mário Quintana
e exijo silêncio e contemplação
e por favor não me falem em Sarney.

sábado, 14 de março de 2009

MINÍMO POEMA

Olho a cidade de cima
e vejo uma procissão
de esqueletos
roendo o limo
úmido da noite.

INVENÇÃO

Este silêncio 0rgásmico
percorre as latitudes
do meu corpo
onde me fabrico
em pedras
plácidas
amargas
ácidas.

O poeta e a amada na Torre Eiffel

A CEIA

As cadeiras estavam postas
junto a lauta mesa de Natal.
contrito meu pai agradecia
a comida
cabisbaixos ouvíamos
a prece comovida,
na parede da vetusta sala
a fotografia dos mortos
agravava o silêncio.

sexta-feira, 13 de março de 2009


A BAILARINA



Braços ágeis

( asas imaginárias)

traduzem a musica

no ar do instante

seminal.
Pernas e gestos

criam roteiros

acrobáticos.

Entre o balé

e a realidade

o salto da bailarina

desafia a gravidade.

O RELÓGIO

O tempo traça
a geografia das horas.
Entre os ponteiros
( aculeos de aço)
deste relógio
sem memória
o instante crucifica
a vida.


Licença Creative Commons.

O PEIXE

O peixe espera
a essência do anzol
( gesto & engôdo)
para o salto
no abismo
da incerteza.

QUASE HAICAIS

1

O vento suaviza o ar
canto de pássaro
soleniza a tarde.

2

O sol esvai a tarde
princípio de chuva
promete temporais-

3

O frio congela os dias
canção de cotovia
tenta enganar o inverno.

4

A lua ilumina a rua
cheiro de jasmim
perfuma a noite.

5

Manhã de domingo
todos na missa
e eu comendo figo.

A CASA DO MEU AVÓ

Os caibros de cedro
desfibram o corpo do tempo
no regaço da noite
onde as horas decapitam
enigmas.

A mémoria levanta andaimes
de sonhos. A voz de fogo das ruas
perverte canteiros
de crisântemos.
O vento limpa o sal
das paredes onde os mortos
se postam e comem
a erva de seus silêncios.

VESTÍGIO

Ainda sinto o cheiro
do teu corpo
( odor de outono)
impregnando
o travesseiro.

quinta-feira, 12 de março de 2009

SESTA

Descanso meu corpo
no útero da tarde cinza
onde redescubro
a paz das horas
enquanto minhas mãos
( soma de gestos contidos)
seguram o silêncio
da varanda.

POEMA DE AUSÊNCIA

Sobre o vazio
deste quarto
as palavras
descobrem ausências.
As notas da canção
não encontram ressonância
em mim,
apenas esse silêncio de pedra
enxagua minha alma.

MARINHA

O sol deste mar é acre
como meus passos
nesta areia sem pouso.

Estou rebelde como o mar.

ROMÂNTICA

Minhas palavras, amiga,
cortam o silêncio de tua boca
e revelam o sol dos teus olhos.

BUSCA

Nesta tarde te busco
nas pedras do caminho
no silêncio verde dos jardins
na delação dos quartos sombrios
e na maciez do rio após a chuva

Não sei se és flor
vento
aurora ou canção
só sei, amiga,
que deixaste em mim
uma insensata inquietação.

GEOMETRICA

Soma das horas
trinômio do tempo
equacionando vidas.
Na geometria dos dias
o triângulo perdeu
suas faces
e me perdi na raiz quadrada
da angústia existêncial.
Nada mais existe de razão
e proporção
somente os anos escoando
na quadratica incerteza
do mundo.

CÓPULA

Abraço-te na hora certa
e desejada,
o sexo projeta
emoções na lâmina
tépida, morna,
o corpo arde
em chamas
e no instante lúbrico,
grito
rosno
suplico.
E em dois segundos
de orgasmo
a vida se renova.

POEMA

Acorrentado em silêncio
estou nesta tarde
sem brilho e sonhos.
Os suicidios se sucedem
na ponte
ante-sala do cais,
penso
medito
cogito
e as palavras se perdem
na lingua abstrata do vento.

NO SILÊNCIO DAS HORAS

No silêncio acre das horas a vida
mergulha nos escombros do tempo
e urde tragédias, trama dissabores
rumina risos e provoca dores.
No silêncio acre das horas
o proletário argumenta dissídios
enquanto nas salas refrigeradas
tecnocratas programam suicídios.
No silêncio acre das horas
na solidão dos casebres
cravados no lôdo das periferias
há angústias e anseios
mães dão aos filhos
(de barrigas vazias)
seios magros e feios.

(publicado no meu primeiro livro " No Silêncio das Horas")

PSICANALISE

Deitada no divã
de pernas abertas
( sexo aflorado)
uma mulher procura
nos olhos do analista
a causa de sua
inquietação.

quarta-feira, 11 de março de 2009

AO SUL DA RESSACA

E mais uma vez chega a noite. Misteriosa. Densa. Escorregadia. E mais uma vez a solidão ataca. Fere. Marca. Enche este quarto onde rumino as minhas palpitações e os meus desencantos. Na boca o gosto amargo da cerveja de ontem me dá a plena certeza de que estou ao sul de minha ressaca. Estou fragmentado em angústias. Nem as canções românticas jogadas ao ar da noite fria pela voz do seresteiro lá na esquina consegue mudar meu estado de espírito. Neste instante, penso em Judite. Ah, Judite-poesia, Judite-passáro azul da minha existência.
Se estivesse em casa, agora, eu não estaria chorando agruras. Estaria bebendo seus lábios num beijo lúbrico, apaixonado e sairia do nada para o delírio. Estou ao sul da minha ressaca e Judite não me aparece. Que saudade de Judite. Do jeito de Judite, das pernas de Judite. Judite é o epicentro do meu terremoto emocional. Os seios de Judite tem cheiro de frutas de Itacoatiara. Faz tempo que Judite foi embora, deixando-me neste estado depressivo. Por onde andas Judite? Que caminho tomaste na tessitura do tempo?

O ESPELHO

Olho no espelho
e vejo o itinerário
das rugas solapando
meu rosto adusto.
Quando mais chego
perto do espelho
(de cruel face)
mais percebo
que tantos caminhos
foram percorridos
e somados as agruras
e os desencantos
sobrou apenas
este ser vertical
sofrido e amargo.

LEMBRANÇA

Hoje o passado voltou
com a chuva.
Vestígio de tempo e memória
marcou o portal da casa.

Hoje o passado voltou
com a chuva
bateu á porta
e foi entrando
de repente vi a infância
chegar e tomar canto
lá fora um brisa antiga
comungou do meu pranto.

CENA URBANA

Tudo que o camelô disser
terá que ser repetido
para que todos saibam
a dimensão do engôdo.

Na tarde gris
( quase sem cor)
o mendigo deu três
cambalhotas
que a moça na calçada
vibrou.

ARTES PLÁSTICAS

Arabescos na parede
grafite e musgo no muro,
dragões de pedra
esculpidos no sal
das calçadas
uma natureza morta-viva
e a lembrança
da orelha cortada de Van Gogh
impressiona á memória.

HOROSCOPO

O brilho dos teus olhos
percorre a manhã,
maio gravido de flores
perfuma o ar do dia
e este teu signo
perverte o zodiáco.

POEMA OU MINI CRÔNICA PARA UMA CIDADE VIOLENTADA


( risort construido á beira do Rio Negro)

Revisito Manaus
e a vejo vertical
deformada
como uma flor
despetalada.
A ambição imobiliária
( voraz e arbitrária)
cagou o Rio Negro
transformou árvore
em concreto
extasiou olhares ingênuos
e atônitos
com a leveza do vidro
e a beleza do mármore
entupiu os igarapés
com lôdo e a merda
dos condominios
empurrou a pobreza
para palafitas e invasões
e na sua sanha destruidora
se aliou a políticos comensais
de banquetes
e de festas
anti-ecológicos.
E o que restou aos manauras
( de senso e vontade)
apenas a trágica missão
de escreverem o necrológico
da floresta
e da cidade.

LEMBRETE

É proibido pisar
na grama
no cimento fresco
no jardim
nas flores,
pisar na cara
dos políticos
não é proibido.

SÍNTESE

O que mais me aflige
não é a madrugada
banhada em chuva
mas esses políticos
(vulturinos e cicutários)
devorando com dentes
de hienas
ás vísceras
do erário.

MINHA PALAVRA

Minha palavra lanço
quando a injustiça
se fizer presente
na vida do homem justo
do homem-labor.
Minha palavra
tem vida
e nunca se vergará
a opressão daqueles
que fabricam as dores
do mundo.
Resumo da ópera,
minha palavra
se erguerá
acima dos poderosos
ainda que débil
ainda que morta.

CAOS URBANO

A boca da noite
engole a cidade
e suas almas.
A osmose urbana
cria monstros
abstratos que atiçam
o caos nas ruas
becos vielas
e avenidas
enquanto milhares
de minotauros
vorazes
e soltos nas praças
caçam inofensivos
teseus
e não há labirintos
á vista
para esconder
a aflição desta creta
sitiada.