quarta-feira, 17 de julho de 2019

PÁSSAROS

Ontem na clara manhã de julho
vi casais de alegres 
sanhaços
bebendo sol
nas grades
do meu terraço.

CENA AMAZÔNICA

A noite caminhava sobre o rio, abrindo sulcos luminosos no dorso das águas com as lanternas da lua. Cantos de pássaros noturnos revelavam que a floresta não dormia. Uma ciranda de peixes saltavam mostrando suas escamas em plena a piracema. Os rebojos das grandes águas pareciam querer devorar o barco. De repente uma nuvem sépia escondeu a lua e o breu se instalou: a escuridão venceu a luz.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O SEMEADOR DE AURORAS

Todos os dias depois do ocaso
planto auroras na lavoura arcaica da noite,
e me vingo da escuridão das ruas
colhendo lumes de luas
nos jardins suspensos da imaginação,
com gotas de orvalho irrigo
os latifúndios das horas
para fertilizar as sementes do tempo
e quando o dia renascer
do ventre da madrugada
alimentarei os pássaros da varanda
com grãos de sol e mais nada.

terça-feira, 9 de julho de 2019

ERÓTICA

Entre as tuas tenras coxas
a erva da sedução
narcotiza meus gestos
abala meus sentidos
e minhas mãos se perdem
no labirinto terno
e obscuro do teu púbis
enquanto o teu corpo inteiro
(desabrochando como um lírio)
me convida ao delírio.

sábado, 6 de julho de 2019

VIAGEM AOS OLHOS DE JUDE

Ó Jude, os teus olhos germinam
lírios e crisântemos e o ar de tua boca
se confunde com anélito de jasmim,
e os teus cálidos braços 
constroem abraços de ternura,
meu universo, Jude,
é o céu do teu olhar.
Sinto tudo isso quando viajo em ti,
.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

A CASA DO SILÊNCIO

Hoje fui à casa onde adolesci. Fica no numero 60 da Rua João Alfredo no antigo Boulevard. Apertei a cigarra e a empregada veio abrir a porta. Entrei e um silêncio quase solene tomou conta do ambiente . Súbito o passado abraçou-me como um velho amigo . Fiz uma rápida viagem pelas ruas e avenidas da antiga residência. O silêncio encantou a casa. Esta em anos pretéritos era só alegria. Todos vivos. Meus irmãos, minha mãe, meu pai e os tios. A casa era um congresso de risos e de felicidade, mas quase todos foram embora, montaram em seus corcéis de brumas e partiram no rumo da Luz. Sobrou apenas três. Eu, Hélio e Áurea. Esta foi internada recentemente e casa agora está sendo comandada pela Renata, uma espécie de governanta que cuidava de minha irmã e agora ameniza as dores de meu sobrinho enfermo. Ela agora dar ás ordens aos fantasmas do passado que ainda estão, impregnados no ar da casa do silencio. Não me contive, meus olhos se inundaram de lagrimas. Diz o poeta que lagrimas são orvalhos da alma. Neste instante, ao olhar o quarto onde dormia e que era o recanto dos meus sonhos e fantasias, meu corpo inteiro orvalhou-se. Peguei Jude pelo braço e saímos da casa do silêncio.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

UM DIA

Um dia , quando este meu velho coração estiver fatigado das asperezas e das adversidades do mundo, como um veterano ator, sairei de cena e me refugiarei em algum lugar do tempo para ruminar minhas palpitações e os meus desencantos. E depois, quando atravessar a última fronteira do meu destino, montarei no meu cavalo de brumas e cavalgarei pelas pradarias do crepúsculo em busca das eternas manhãs.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

OS PÁSSAROS DO CREPÚSCULO



Os pássaros do por do sol chegaram.
Chegaram tardiamente,
mas chegaram quando o sol desfalecia
nos braços do rio.
Trouxeram em suas asas de neon
chispas de sol para acalentar
a frieza do inverno das noites do tempo
e nos bicos de sonho
trouxeram os embriões da noite.
E foram logo habitando a varanda,
onde todos os dias e os espero,
descasaram suas asas e seus flautins
para um novo recomeço.
Amanhã eles retornarão as suas rotas aéreas,
cavalgando como pequenos corcéis alados
os ares do novo dia,
mas voltarão no fim da tarde.
Os pássaros do meu ocaso.
( depois de ler um poema de Nydia Bonetti)

sexta-feira, 31 de maio de 2019

VIAGEM

Viajo na paisagem do teu corpo
mergulho e garimpo perolas
no mar dos teus olhos,
e se o inverno me alcançar
com suas hordas incessantes
de frio,
me refugiarei na arquitetura
terna dos teus braços
e depois dessa viagem onírica
aporto na doce calmaria
do teu ventre.

TOCATA MATINAL EM TEMPO DE CRISÂNTEMO E GIRASSÓIS

Germinando no silêncio do jardim
um crisântemo espera o nascer do sol
para abrir suas rutilas pétalas
no ar pleno da manhã que vai raiar
enquanto o sereno da noite
orvalha um canteiro de girassóis
que continuam girando, girando
( mesmo sem a presença ainda do sol)
ao sabor dos ventos noturnos.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

UMA CICATRIZ VIVA


No ciclo da memória deixei uma porção do meu sorriso e miríades de palpitações, entre sistole e diástole, do meu coração, numa curva do Rio Juruá. Ah, como era verde e palpitante o meu vale. Meus olhos perscrutavam a várzea toda plantada de cultura de curto ciclo e se quedavam em observar cardumes coando ovas no fio da correnteza e nas solas do crepúsculo pássaros retornado aos ninhos para o descanso de suas asas fatigadas de voos intensos. Lá para os lados do remanso, botos em arroubos lúdicos saltavam, acrobaticamente, se despendido dos dias que já estavam em vascas. Ah, como era belo meu vale e meu rio. Como uma cicatriz viva e errante, o Rio Juruá ainda está em mim e todos os dias e todas às noites percorre a anatomia do meu corpo, indo da memória até o mar abissal de minha alma viajando em sua própria correnteza de saudade. E ele jamais sairá de mim.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

DIA DAS MÃES

Na primeira vez que te vi senti, nos desvãos de minha alma, que serias uma grande mãe. E não me enganei. Durante todo esse tempo, mais de quatro décadas, que andamos pelos caminhos da vida, atravessando, rios, lagos e mares, escalando montanhas, pisando em cardos e urzes, tens sido, Judite, a força que nos tem alimentados de animo para vencer as contendas neste mundo pantanoso, onde os tentáculos do mais cruel e mais desumano materialismo tentam, todos os dias, nos abarcar. Tens sido,amor, a bussola que nos tem norteados em todos os momentos da vida. Eu sou grato a ti e meus filhos e netos também.Tens inspirado, com teus gestos prontos, a poesia deste pobre poeta, garimpeiro de luas e luares e contra-mestre dos sonhos. Feliz Dias das Mães, Judite!!!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

DOIS ANOS SEM O LIRISMO DE BELCHIOR



Saio do meu casulo de silêncio para prantear o poeta Belchior que nesta manhã, foi levado pelas Walquirias e cavalgou com elas pelas pradarias do Nunca Mais, em busca dos eternos arrebóis. Poeta da musica, sobretudo, poeta da vida que a cantou com muita inspiração. Nunca mais veremos essa figura emblemática da musica dedilhar as cordas liricas de seu violão e construir canções que nos consolavam dos rigores do tempo e da vida. O cancioneiro nacional ficou um pouco pobre, Belchior está morto. Vivas estão suas canções lapidares cheias de palavras intensas e frases abissais. O poeta está morto. Nunca mais verá, com seu olhos de poemas, "as velas do Mucurípe saírem para pescar". Não mais será o mar de Copacabana e nem abrirá os braços no Corcovado. Não mais será "um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". Agora ungido em silêncio restará, apenas a memória e as canções que criou como ligação eterna entre o homem e a eternidade. Vá com Deus, poeta. O poeta está morto. Viva o poeta!!!!!!!
( Texto escrito quando do rito de passagem do menestrel em 30/04/2017 )

INSÔNIA DAS HORAS


.Uma lua madura aproveita a insônia das horas
para habitar os círculos dos teus olhos
e a noite desce com a lua e vem iluminar
as escamas desse rio por onde navegam
os teus mais belos sonhos
em tua barca de tempo e memória.
e na arquitetura lúbrica dos teus lábios
existe um sol fermentado
que queima de paixão e de ternura

quem ousa oscular tua boca em tempera.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

O TEMPO

O tempo passa célere e atrevidamente pelas trilhas do meu destino. Dizem que ele, este tempo carrasco das idades, tem o condão de esquecer ou apagar certas lembranças contidas em passado distante. Ele passa por mim pela minha vida e intercala algumas recordações embutidas nos desvãos da memória. Entretanto, desafio este tempo bobo me fazer esquecer o rio de minha infância, o Rio Juruá. Diz o poeta Pessoa, o Fernando da Tabacaria, que toda aldeia que se preza tem um rio. E o rio de minha aldeia é o Juruá. Este rio está impregnado em mim, nas minhas vértebras, no meu pensamento e entre sístole e diástole habita até hoje, este meu velho coração. De seu caudal foi tirada a água que me batizou. Basta fechar os olhos para vê-lo imponente, com seus remansos belos e silentes, com seus rebojos em fúria, invadindo epicamente a várzea inundando-a com seu húmus fertilizante e com sua lamina de correnteza abrindo o ventre da selva selvática em busca de sua destinação. Não, o tempo não faz esquecer e nem apaga as coisas belas da vida. “ Falam que o tempo apaga tudo. Tempo não apaga, tempo adormece”. Palavras mais que atiladas de Queiroz, a Raquel de O Quinze.

terça-feira, 30 de abril de 2019

DOIS ANOS SEM O LIRISMO DE BELCHIOR


Saio do meu casulo de silêncio para prantear o poeta Belchior que nesta manhã, foi levado pelas Walquirias e cavalgou com elas pelas pradarias do Nunca Mais, em busca dos eternos arrebóis. Poeta da musica, sobretudo, poeta da vida que a cantou com muita inspiração. Nunca mais veremos essa figura emblemática da musica dedilhar as cordas liricas de seu violão e construir canções que nos consolavam dos rigores do tempo e da vida. O cancioneiro nacional ficou um pouco pobre, Belchior está morto. Vivas estão suas canções lapidares cheias de palavras intensas e frases abissais. O poeta está morto. Nunca mais verá, com seu olhos de poemas, "as velas do Mucurípe saírem para pescar". Não mais será o mar de Copacabana e nem abrirá os braços no Corcovado. Não mais será "um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". Agora ungido em silêncio restará, apenas a memória e as canções que criou como ligação eterna entre o homem e a eternidade. Vá com Deus, poeta. O poeta está morto. Viva o poeta!!!!!!!
( Texto escrito quando do rito de passagem do menestrel em 30/04/2017 

OPUS DA MANHÃ

Quando sol começava a semear incêndios nas solas do horizonte desprovido, ainda de nuvens, um pássaro em tom sustenido apressa o canto para inaugurar os alicerces do dia e tuas mãos,amor, em tear de sonhos, fia os fios da luz solar para aclarar o ventre das ruas ainda sombrias nas bordas do outono, enquanto um folha verde sacia sua sede com gotas do orvalho da manhã renascida dos escombros da noite. Opus da manhã, o sol, enfim, incendiou o dia.

terça-feira, 23 de abril de 2019

AS SETES LUAS


Quando as sete luas passarem
e o tempo mostrar a rota da primavera,
colherei flores no campo para te oferecer
catarei fiapos de sol para amornar
às minhas mãos em gestos de espera
e mostrarei o melhor sorriso
para ávido, ansioso te receber
no mesmo alpendre que um dia te viu
partir com chispas de estrelas nas mãos.
Tua distancia e ausência me incorrem
em ânsias e angustias numerais,
mas tudo isso, amiga vai findar
com vestígios de tua chegada
pois " sete luas passam rápidas demais ".

sábado, 20 de abril de 2019

CANTO I

O tempo deletou a tarde.
A noite abriu seus abismos de sombras
para encobrir seus desastres, 
um vento desgarrado de seu rebanho
espatifou-se sobre a janela da antiga 
casa em desconstrução.
Tentei varrer a soma dos meus pecados
para debaixo do tapete
mas o remorso alter-ego de minhas culpas
não deixou quando a noite já tinha
engolido as vísceras do dia,
e então, tive que sair do poema.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

OCASO

O tempo gera ocaso
( sem alarde)
no útero da tarde.

A CASA

A casa é velha. Muito velha, No telhado o tempo plantou musgo e líquens, na fachada os anos desconstruiu sua arquitetura. Em suas laterais o capim- navalha escondeu seu jardim em ruínas. Um muro em decomposição albergado por dois portões de ferro inteiramente oxidados cercam sua entrada. Olhei a casa ou o que restou dela com os olhos cheios de lágrimas. Então perguntei ao homem idoso relaxado na cadeira de embalo, pitando um cigarro confeccionado com fumo de rolo. O sr. sabe que eram os donos deste imóvel? E o velho respondeu - Já faz muito tempo. Quase não me lembro das pessoas que ai moravam. Só lembro de um menino negro de nome Julio que morava nesta casa. Curioso perguntei: - E agora o que há no interior desta casa arruinada? E o velho me respondeu: - Moço, só memórias. Memórias.

terça-feira, 16 de abril de 2019

CAMINHADA


Vamos, amiga, caminhar por essas sendas desconhecidas. Não temas a escuridão, trago comigo uma lua de bolso para guiar nossos passos no chão e a noite, amiga, envelheceu sobre os seus próprios desastres e os sátiros guardiães de suas sombras também envelheceram sobre os escombros do tempo. No fim da caminhada, amiga, o sol renascerá sobre um campo de margaridas e beberemos um pouco de orvalho na concha policrômica da manhã. Vamos, amiga, continuar a caminhada e que no fim da jornada, do outro lado do tempo, um novo horizonte nos espera

domingo, 14 de abril de 2019

ME SIRVO

Me sirvo da manhã
para catar fiapos de sol
na grama do parque
me sirvo da chuva
para lavar meus pecados
me sirvo das tintas do arco-íris
para pintar as cores do arrebol
me sirvo da tarde
para colher nuvens
no céu acetinado
me sirvo da noite
para dormir meus sonhos
e devaneios]
por fim me sirvo do silêncio
nas horas caladas
para me inebriar
com a arquitetura lubrica
dos seios da mulher amada.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

POÉTICA II

De manhã colho orvalho
nos jardins da ruas
para molhar teus cabelos
de tarde roubo canto
dos pássaros para ninar tua sesta
e de noite pinto teus cílios
com a prata da lua.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

IDÍLICA CAMINHADA PELOS RUMOS DO MUNDO




Estamos na trilha dos quarenta e sete anos de caminhada pelas arestas estafantes da vida. Quarenta e sete luas, quarenta e sete estações, palmilhando planícies e cumeadas, seguindo para frente e para alto. Nunca deixamos de sentir em nossos caminhos o ardor do verão, a poesia do outono desfolhado, o refrigério do inverno e o olor da primavera. Unidos em liame de amor e ternura continuamos a marcha até o dia em que cavalgaremos pelo crepúsculo. Vem, amor, deixe um pouco esse nosso quarto de sonhos onde estão confinados nossos rebanhos de memórias, saia da vertigem desse silêncio e senta comigo nesta varanda de tempo e deixe que os vagalumes orbitem o ar dos teus cabelos, eles são pequenas luas terrestres que voam e que precisam de fagulhas da tua aura luminosa para acender seus lumes. Não se importe com o sopro dos ventos eles são, apenas, polinizadores de auroras e suavizam essa noite de nossa efeméride. Sou-lhe muito grato, amor, por continuar marchando comigo pelos caminhos da vida e do mundo, enfrentado sendas difíceis de serem vencidas, mas temos conseguido suplantá-las . Tens sido, amada, a bussola que tem norteado a vida desse pobre poeta, garimpeiro de luas, faiscador de estrelas e contra - mestre dos sonhos. Hoje continuamos a jornada de quarenta e sete anos juntos. Estamos descendo as escarpas do tempo. Procedemos de Deus e vamos para Deus, “a terra é apenas uma passagem, caminho entre dois infinitos”. Mas continuamos a nossa jornada ao lado de filhos, netos e bisneto. A vida é uma festa, ainda.

PÁSSAROS

Ontem na clara manhã de julho vi casais de alegres  sanhaços bebendo sol nas grades do meu terraço.