sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

CAOS

Há tantas cicatrizes
nestes caminhos,
há tantos passos
errados nestas estradas
nenhum sorriso
percebi nesta multidão
encharcada de traumas
e neuroses
e o caos urbano
torna a vida
questionável e insípida.
mas será consigo sobreviver
até o fim desta avenida?

TRISTES TRÓPICOS

Eu cansei dos trópicos. Cansei de presidentes ruins, governadores ruins,prefeitos ruins, parlamentares ruins, aeroportos ruins, rodovias ruins e portos ruins. Cansei de ouvir, ver e ler na mídia: roubo em estatais, país bate recorde em homicídios e acidentes de transito, os dois juntos ganham de qualquer guerra em números de vítimas.
Cansei de péssimo serviços de saúde, educação, segurança e de políticos salafrários. O meu amigo, poeta Aldisio Fílgueiras, escreveu um dia: "como é difícil ser romano nos trópicos". Cansei dos trópicos. Tristes trópicos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

SOBRE MINHA MÃE


Em cada gestos de minha mãe
nascia um poema em cada olhar
de minha mãe abria-se
um foco de luz que alumbrava
a escuridão dos meus
caminhos
cada palavra
de minha mãe era um idioma
que universalizava a ternura.
.
( tuas lembranças,mãe, fertilizam ainda mais a minha saudade)

domingo, 4 de novembro de 2018

MÍNIMA PAISAGEM

O sol em rota de ocaso
com seu brilho já tênue,
quase morto, ainda invade
os telhados das velhas casas
esquecidas]
ao longo da praça deserta,
vindo da ribeira uma lufada
de ventos, sem alarde,
tenta suavizar a canícula do dia.
Pousado sobre a ponte um velho pássaro
descansa suas asas fatigadas
de distâncias percorridas,
enquanto seu canto metálico
enternece e engravida a tarde.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

INVENÇÃO

Vi o sol saindo dos teus olhos
e incendiando os portais da tarde,
crestando os fractais surrealistas
dos meus sonhos.
E quando acordei já era noite.
No parapeito da janela do quarto,
um pedaço de lua me olhava de soslaio.
E quase desmaio.

domingo, 21 de outubro de 2018

E COMO ERA VERDE MEU VALE


O meu vale era verde. Muito verde. Verde como uma pedra de jade. E neste teatro verdejante passei uma parte de minha infância me acordando nas madrugadas da vida para esperar o raiar das auroras. Adorava estes instantes de beleza e policromia que inebriavam minha alma. Exultava em ver o sol com seu falo de fogo romper o hímen das manhãs amazônicas. Espetáculos fascinantes que embotavam de cores os olhos de menino que eu era. A outra metade da infância foi de aprendizado. Aprendia todos os dias, com os ribeirinhos, quase índios, os mistérios do rio. Da força de sua correnteza, dos mistérios dos grandes rebojos, a psicologia das piracemas, a beleza e mansidão dos remansos e o regime das águas. Aprendi a nadar com os peixes e a cantar com os pássaros. O velho Josias me ensinou os mistérios da mata, de como nunca me perder na floresta. Conheci e aprendi com ele todos os cantos do pássaros do lugar. Quando era noite de lua cheia nos reuníamos na varanda do barracão para escutar o velho Macambira contar historias. Eram narrativas de botos sedutores, de Mapinguari, de Mula-Sem- Cabeça e outras lendas horripilantes do repertório do velho caçador. Na frente do barracão o rio corria absoluto cortando o ventre da selva selvática com a lamina de sua correnteza. Mundo verde tão pequeno, mas tão meu. Hoje sinto uma imensa saudade a percorrer as latitudes do meu corpo. E aquele menino que se encantava com as auroras e o levantar do sol das manhãs, onde ele anda? Ah, aquele menino atingiu um tempo que os hipócritas chamam de “ o melhor tempo “. Aquele menino hoje é um velho, cuja única diversão é colecionar crepúsculos .

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

HEY JUDE


Nestes dias em que a primavera
matiza as fimbrias do tempo
com as cores de suas flores,
peço emprestado o mar dos teus olhos
para navegar os meus sonhos.

terça-feira, 24 de julho de 2018

CONVITE AOS LÍRIOS


Quando os lírios ornamentarem
as campinas
da estação com suas flores olentes
e cândidas te convidarei para juntos
passearmos por esses campos,
ouvindo a sonata dos pássaros em cio
e tecendo costuras de sol.
E quando os Ipês,em floradas,
mostrarem aos amantes da primavera
suas belezas inebriantes,
me inventarei astronauta
e com minha nave de sonhos,
penetrarei no microcosmo do tempo
e abrirei o bau do passado,
tentando resgatar o elo perdido
de minhas memórias.

Lírica


Chegaste da jornada onírica/ pelos círculos do tempo/chegaste como os ventos que invadem janelas/ sem permissão/trouxeste nos cabelos uma flor amarela/ e nas mãos vernizes de luas
/e com chispas de sol nos olhos/ atravessaste a cidade/ e eu ardendo em chamas / te reencontrei na fronteira da tarde/.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

DE SOMBRAS E TEMPO


Essas sombras margeando
as trilhas dessas galaxias subterrâneas,
as horas limando as moléculas do tempo
deprimem o instante seminal
enquanto a vida coleciona abismos.
Mas nem tudo é angustia e aflição
nem tudo está perdido
ainda há um tênue cintilo de sol
na senda escura da solidão.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

VESTÍGIOS I

Os ventos trazem vestígios
de tua presença na rua
salpicada de sol,
enquanto a tarde prenhe
de pássaros e cantos
desperta o sono dos jardins.
.

sábado, 9 de junho de 2018

TRÊS INSTANTES, A AMADA E O POEMA


Nesta manhã de sol mineral
gestada de uma vértebra
do tempo,
ventos atrevidos se revoltam
na ribeira
e agitam as águas deste mar sem fim
enquanto um beija-flor viril tenta polinizar
velhas roseiras
na solidão floral deste jardim.
E chega a tarde de sol, cerebral,
e me invento em asas
e como pássaro de sonho tento voar
com a intenção de pousar
na paisagem idílica do teu olhar.
E então, chega a noite insone e numeral
trazendo sombras invasoras e degastadas
e então, vou à lavoura de luares
e colheito falanges de luas
para iluminar o sono da mulher amada.

A NAMORADA

Minha primeira namorada
tinha nos olhos centelhas
de sol
e suas mãos divinamente brancas
exalavam olor de rosas silvestres
no corpo de Venus
ardiam lavas vulcânicas
e na boca lubrica um jeito
meigo de dizer: te dou.

PEQUENO POEMA, QUASE NOTURNO

Antes que a noite chegue
com suas colmeias de sombras
e tisne de negror às ruas
preciso urgente do brilho
dos teus olhos claros
para acender o lume da lua.

PARA JUDE

Ah, esses campos matinais onde os nossos
pés de sol caminham,
são férteis,
há giro de girassóis e canteiros de margaridas
efluviando o ar do instante seminal,
e neste momento
desejaria possuir mãos mágicas
para acender todas às manhãs
o brilho dos teus olhos.

terça-feira, 8 de maio de 2018

CANTO DAS ESTAÇÕES


De repente o verão caiu em mim e sobre a cidade e foi logo aquecendo minhas velhas e frias vértebras com seu calor intenso. Acendeu sombrios jardins antigos com sua claridade e consagrou o sol por todos os dias do meu tempo. E, então, o outono chegou e pintou em cores às arvores destes bosques sequiosos de luz ,quietude e matizou as fimbrias dos ocasos esquecidos, mas infelizmente paraninfou holocausto de folhas do arvoredo defronte à praça atapetada de musgo e liquens. Então chegou o inverno com suas manhãs e tardes cinzentas e molhadas e só encontrei sol na lirica paisagem nos olhos da mulher amada. Mas quando a primavera chegou com suas carruagens de flores o vale se coloriu,perfumou as ravinas e germinou um campo de margaridas. E a vida se renovou no canto das estações.

DIA DAS MÃES

Na primeira vez que te vi senti, nos desvãos de minha alma, que serias uma grande mãe. E não me enganei. Durante todo esse tempo, mais de quatro décadas, que andamos pelos caminhos da vida, atravessando, rios, lagos e mares, escalando montanhas, pisando em cardos e urzes, tens sido, Judite, a força que nos tem alimentados de animo para vencer as contendas neste mundo pantanoso, onde os tentáculos do mais cruel e mais desumano materialismo tentam, todos os dias, nos abarcar. Tens sido,amor, a bussola que nos tem norteados em todos os momentos da vida. Eu sou grato a ti e meus filhos e netos também.Tens inspirado, com teus gestos prontos, a poesia deste pobre poeta, garimpeiro de luas e luares e contra-mestre dos sonhos. Feliz Dias das Mães, Judite!!!

segunda-feira, 7 de maio de 2018

DIA DAS MÃES

Mães não têm dias. Todos os dias são dias de mães. Ao menos para mim. Todos os dias me lembro de minha mãe, dos seus gestos contidos e de sua larga sabedoria de vida, de seus conselhos e principalmente de suas mãos. As mãos de minha mãe era divinas, sentia toda maciez delas quando alisava o ar dos meus cabelos. Mulher altiva que enfrentou toda sorte de adversidades vivendo em lugares inóspitos dessa Amazônia bela e agressiva. Sendo uma mulher branca e carregada de amor pelo meu pai, um homem negro, esbofeteou a cara dos preconceituosos e amou muito meu pai. Uma tarde de junho, já quase crepúsculo, chegaram em nossa casa, dois anjos e nos disseram: Sentimos muito, mas Deus precisa dela! E a levaram aos ares celestes. Hoje ela é agricultora. Semeia amor e colhe ternuras nas lavouras divinas dos campos sagrados do Senhor. Mesmo sabendo que este dia foi inventado pelo mercantilismo ganancioso, Feliz Dia das Mães, ESTEFÂNIA!!!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

UM ANO SEM O LIRISMO DE BELCHIOR


Saio do meu casulo de silêncio para prantear o poeta Belchior que nesta manhã, foi levado pelas Walquirias e cavalgou com elas pelas pradarias do Nunca Mais, em busca dos eternos arrebóis. Poeta da musica, sobretudo, poeta da vida que a cantou com muita inspiração. Nunca mais veremos essa figura emblemática da musica dedilhar as cordas liricas de seu violão e construir canções que nos consolavam dos rigores do tempo e da vida. O cancioneiro nacional ficou um pouco pobre, Belchior está morto. Vivas estão suas canções lapidares cheias de palavras intensas e frases abissais. O poeta está morto. Nunca mais verá, com seu olhos de poemas, "as velas do Mucurípe saírem para pescar". Não mais será o mar de Copacabana e nem abrirá os braços no Corcovado. Não mais será "um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". Agora ungido em silêncio restará, apenas a memória e as canções que criou como ligação eterna entre o homem e a eternidade. Vá com Deus, poeta. O poeta está morto. Viva o poeta!!!!!!!

sábado, 21 de abril de 2018

HÁ UM CENTAURO NA VARANDA

A tarde caminhava célere para os domínios da noite, mas, mesmo assim, réstias de sol ainda pousavam tenuemente sobre os telhados das velhas casas circundantes à praça, neste momento deserta. Pássaros em voos lestos retornavam aos seus ninhos nas copas do tamarindos. Olhei para a varanda e tive um susto do tamanho do meu medo. Ao lado direito da varanda um enorme centauro descansava. De suas patas encardidas saltavam fogo e seus olhos de homo – equino me pareciam tristes. Na altura do tórax via-se diversos ferimentos.
Depois de observar aquela figura fantástica perguntei:
- Quem és tu e de onde vens? E ele respondeu:
- Desculpe de usar sua varanda para descanso. Como a noite vem chegando resolvi parar aqui para descansar e passar a noite e observar as estrelas. Nós centauros amamos as estrelas. Venho das montanhas da Tessália, na Grécia, onde nasci. Cavalguei séculos para chegar até aqui. Sou filho de Íxion e Nefele. Essas marcas que você vê no meu corpo é resultado da luta que empreendemos, eu e os meus irmãos, contra os Lápitas. Essa luta teve como motivo as bodas de Hipodâmia com o rei dos Lapitas,Pirítoo. Um de nós tentou rapta-la e a luta começou. Fomos expulsos da Tessália e passamos habitar o Épiro. E a fúria de Hercules se abateu sobre nós e fomos quase exterminados por ele. Daí eu estar cavalgando pelo tempo e vim parar aqui em sua varanda.
-Meu caro pode descansar á vontade, respondi . A noite já chegou. Amanhã falaremos!
-Vô acorde. O senhor está dormindo na cadeira de embalo. Entre, vá para sua cama! Era meu neto Marcelo, me acordando. Abri os olhos e perguntei: - Cadê ele? Ele quem, vô, indagou-me o neto. Nada, respondi. Apenas um sonho.

POEMA II

Me sirvo da manhã
para catar fiapos de sol
na grama do parque
me sirvo da chuva
para lavar meus pecados
me sirvo das tintas do arco-íris
para pintar as cores do arrebol
me sirvo da tarde
para colher nuvens
no céu acetinado
me sirvo da noite
para dormir meus sonhos
e devaneios]
por fim me sirvo do silêncio
nas horas caladas
para me inebriar
com a arquitetura lubrica
dos seios da mulher amada.

VENERAÇÃO

E quando a tarde findar
colocarei, se puder, 
um por do sol
na serena dimensão
do teu olhar.

A CASA

A casa é velha. Muito velha, No telhado o tempo plantou musgo e líquens, na fachada os anos desconstruiu sua arquitetura. Em suas laterais o capim- navalha escondeu seu jardim em ruínas. Um muro em decomposição albergado por dois portões de ferro inteiramente oxidados cercam sua entrada. Olhei a casa ou o que restou dela com os olhos cheios de lágrimas. Então perguntei ao homem idoso relaxado na cadeira de embalo, pitando um cigarro confeccionado com fumo de rolo. O sr. sabe que eram os donos deste imóvel? E o velho respondeu - Já faz muito tempo. Quase não me lembro das pessoas que ai moravam. Só lembro de um menino negro de nome Julio que morava nesta casa. Curioso perguntei: - E agora o que há no interior desta casa arruinada? E o velho me respondeu: - Moço, só memórias. Memórias.

POEMA



Nestas horas de solidão de pedra
onde o silêncio e o tedio medram.
lugar que ainda resisto 
as insurgências do cotidiano 
colho e entendo a mudez do teu grito
é essa varanda de tempo em que sonho
e no mar proceloso um barco
carregado de sonhos e memórias invade
( sem pressa e sem ruptura )
o cais noturno da minha saudade.

A MULHER DO SONHO

Eu a vi. Era uma mulher andando no meu sonho vestida de sol e caminhava pisando em musgos e liquens encrustados nas pedras do caminho. Le...