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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

CANÇÃO PARA CAMINHADA


A chuva molha minha fantasia de pássaro
mas não consegue molhar meu canto,
estou órfão de verão e os ventos minerais
foram embora
partiram e não se despediram da aurora,
meus olhos debulham paisagens
perdidas ao longo desses caminhos
saturados de cardos e urzes
e os meus pés calçados com essas
botas de tempo estão cansados de distancias
mesmo assim tenho que continuar a aventura
por essas sendas esperando o acontecer de vácuos.
A vida me mostra as insidias do tempo
e não sei o que me espera no fim deste percurso
e se cansar de vez, evocarei o espirito de Kerouak
para me acompanhar na jornada. Enquanto não avisto
fim dos meus passos
a chuva continua a molhar minhas asas
minha fantasia de pássaro
mas não consegue molhar o meu canto.

( para o poeta Sandro Nine, meu filho).

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

PAISAGEM DO INSTANTE ( II )


O sol capinava sombras
na extensão das marquises
onde mendigos mascavam
a erva de suas misérias,
no pendulo do relógio o tempo
coava as horas e multiplicava
o calendário das idades,
nos alagados da ribeira o rio
apressado, mostrava seus cardumes
na crina das ondas.
No alto um bando de andorinhas
migrantes, em voos acrobáticos,
riscavam a pele do vento
e nas solas do horizonte
um pássaro solitário perseguia
implacável um arco- iris
e a tarde urinava nos jardins.
A chuva veio na lamina dos relâmpagos
e trouxe a noite, esta com suas litanias
de sombras e langor,
e toda a paisagem do dia
do meu olhar se apagou.