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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MEMORIAL

A cal despregando-se das paredes
onde silentes se postavam as fotografias
dos mortos. A geografia do relógio
descrevendo os cíclos das horas
na cincunferência do tempo;
da cozinha vinha o cheiro forte
do café de minha mãe ás três da tarde,
o olhar penetrante de meu pai
reagindo as travessuras de meus irmãos
e em sua cadeira de embalo meu avô
( com o olhar fixo num ponto da rua)
debulhava espigas de silêncio.
Ah, que saudades da velha casa
da rua dos Tamarindos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

POEMA DO AMOR REFÉM

Na tarde de sol e canícula
em que a arquitetura do silêncio
constroe seus gomos no ar
deste velho alpendre
tua presença me faz refém
da serenidade do teu olhar
que penetra em mim
como um facho de luz outonal
e meu cativeiro, amiga e amor,
é o litoral dos teus lábios quentes
que encerra mistérios
do amor sublimado que sinto
e minha rota de fuga, amada,
é a calma península do teu corpo
que fica no território livre do teu ventre.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

PARTIDA

De minha passagem
por aqui
restarão apenas
o meu discurso
sem aridez dos verbos
e a memória do dia
agastada pelo sol
de agosto.

sábado, 6 de agosto de 2011

ALZHEIMER




No silêncio da cadeira
com as mãos cobrindo
o rosto sombrio e enrugado
( imerso no bojo de sua solidão)
um velho monologa
com seu passado.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DIALÉTICA DAS HORAS



Rasgo as trilhas da madrugada
com minhas mãos de musgo,
toldo meu instante com os restos
da escuridão da noite passada
e tento decifrar a caligrafia
deste silêncio numeral
levando nos ombros arqueados
uma lua morta e fria,
e na dialética das horas
o canto do galo despe as sombras
dos latifundios do dia.