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quinta-feira, 30 de abril de 2009

GOMOS DA MEMÓRIA

Inda me lembro dos dias da infância
retidos nos desvãos da memória,
no alpendre da casa
gasta de sóis e chuvas,
um velho de cabeça branca
e olhar aquilino, meu avô,
contava história de fadas
sacis e duendes e a criançada
o ouvia absorta,
lá fora uma lua maiúscula
pintava de prata
o pomar de minha vó.
No quarto em silêncio
minha mãe orava a Deus
pela volta de meu pai
que estava em viagem,
num canto, na penumbra,
tia Ema e seu namorado
(entre excitação e ulos abafados)
lascivos celebravam Eros
expondo seus arroubos e pecados
em cima do velho tapete da sala.

sábado, 25 de abril de 2009

INVENÇÃO PARA UMA VIAGEM DE SONHOS

Num campo de margaridas
onde manhãs estivais
pastam silentes,
evoquei o silêncio do sonho
e os alicerces da memória
ultrapassei os umbrais do tempo
e me vi plantando esperanças
á beira do rio de minha infância
Caminhei pelas alamedas da vida
cataloguei palpitações e desencantos
e me coloquei no caos das ruas
das cidades masculinas
( cruéis e desumanas)
entupidas de homens sem rostos.
E nesse vadiar de sonhos
dividi os gomos das minhas angústias
com as madrugadas insones,
vi a rosa do povo romper o asfalto
e nascer impávida e bela
humanizando a rua,
vi pessoas apressadas
( carregando suas cruzes)
fugindo para Pasárgada,
ouvir um velho poeta dizer
que o amor é eterno
enquanto dura.
E meus passos alcançaram
o caule da aurora
e vi a estrela da manhã
apagar seu lume
quando o sol rompeu
a vidraça do quarto
e me despertou da aventura
onírica.

( para a poeta Doroni Hilgenberg que veio de muito longe e abraçou a Amazônia como sua segunda terra. Presto homenagem, também, aos poetas divinos, Thiago de Mello,Drumond, Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes, faço alusão aos mestres nas entrelinhas do poema)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

INSTÂNTANEO DE VIAGEM



( O poeta e a amada no Retiro em Madri, na foto ao fundo aparece o Portão de Alcalá, um dos belos monumentos da capital madrilena.

POEMAS MARGINAIS

1

O JÔGO


Aos quarenta e cinco minutos
da jogada amorosa
levantaste da cama
( cálida e ardilosa)
o meu gôzo parou
entre a ansiedade
e o clímax
ficamos no zero a zero.

2

CONDIÇÃO

Exige-se
que o amor
seja doce
enquanto dure
e efêmero
enquanto amargo.

3

URBANO

Os olhos, olhos da tarde
olham meus passos
na espereza das calçadas
onde caminho meu corpo
verical gordo e amargo.
Há uma avareza de sorrisos
nas ruas becos e avenidas
onde a mudez das estátuas
reprovam a merda
dos pombos,
enquanto cabeças diversas
caminhas inanes
em varias direções
( rotina dos dias),
na porta do Cinema Panamá
um cartaz anuncia filme de Tarzan
com Johnny Weissmuller,
amanhã vou ao cinema
para rever as coxas da Jane.

4

BALAS PERDIDAS


Três tiros
na noite
marmorea
irrompem
os degraus
do silêncio.
No cabide
na sala
da casa
a roupa
permanece
intacta.
Na rua
deserta
nenhum
lamento
prostado
na calçada
mas no jardim
uma flor
jaz
despetalada.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

MARINHA



O mar em seu discurso
de brumas
ensopa de maresia
as sendas do crepúsculo
onde acrobáticas gaivotas
pescam a refeição vesperal
no dorso agitado
das águas,
e o sol derrama
os últimos raios
sobre a praia
enquanto a tarde
se despede
no vácuo das ondas.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

AFRICA




Escravidão da cor
escravidão da miséria
escravidão da dor
escravidão da terra
escravidão da guerra.
Africa
continente em decomposição
( onde o sofrimento é pertinaz)
mesmo assim Africa,
eu te amo
berço dos meus ancestrais.
(poema construido após a releitura de Africa, poema da inspiradissima poeta paulistana Nydia Bonetti)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

POETAS DA AMAZÔNIA





Elson Farias (foto) é um dos mais talentosos poetas da Amazônia. É tido como o principe dos poetas do Amazonas. Nascido em Roseiral, municipio de Itacoatiara, Am, vive em Manaus. Foi presidente da Academia Amazonense de Letras, escreveu varios livros entre eles: Barro Verde, Estações da Várzea, Romanceiro, Três Episódios do Rio e Do Amor e da Fábula. Um dos fundadores do Clube da Madrugada, movimento literário acontecido nas décadas de 60 e 70, que revolucionou as letras e as artes do Estado do Amazonas.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM



( o poeta e a amada no Bateau Mouche, em passeio turístico pelo Rio Sena, em Paris, Fr.)

MEMÓRIAS NA TARDE

O vento chega ao alpendre
da velha casa onde nascí
e traz o cheiro antigo de meu pai.
Miragens turvas do passado
retornam e tomam conta
de quartos corredores
salas e quintal,
sentado na velha cadeira de vime
assisto o suícidio do sol
que teima em beber o rio
no fim da tarde.
De súbito vultos do meu passado
fantasmas de mim mesmo
açulam a memória
num festim de saudades
e vejo minha mãe
( imagem doce e luzidia)
a pervagar meus sentidos,
memórias nada mais
que memórias
povoam estes instantes
de reflexão e nostalgia...

domingo, 19 de abril de 2009

QUATRO POEMAS

Benny Franklin
Branca Pires
Cintia Thome
Nydia Bonetti

sábado, 18 de abril de 2009

O NARIZ DE KARL MARX




Vi Karl Marx torcer o nariz
para a economia política
do Século XIX.
Então a revolução se fêz
deixando de lado
a concessão e o perdão.
Agora, passados anos,
vemos que o nariz de Marx
estava errado.

( este poema foi construido como experimento.É que os poetas Frederico Barbosa e Claudio Daniel chamam de Poesia de Invenção).

quinta-feira, 16 de abril de 2009

PESCARIA

Banho de rio
água fria
na tarde de sol
cheiro de pinga
no ar do dia
peixe vivo
na ponta do anzol.

MEUS HERÓIS

Meus heróis
(sem distinção de cor)
não morreram de overdose,
morreram de cirrose,
eu morro de amor.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

INSTÂNTANEO DE VIAGEM



(o poeta e a amada no complexo do Santuário de N.S.De Fátima, em Fátima, Portugal)

INAUGURAÇÃO DO DIA

O sol abrindo a flor
no ar gélido da manhã
teus olhos refletindo
nas aguas mansas
cristalinas e frias
do regato corrente
inauguram o dia.
Nós dois na relva deitados
e teus dedos riscando
( navalhas ardentes)
a pele do meu corpo
explode em mim o cio
e eu mareante me afogando
no oceano dos teus
lábios rubros
em meio a um turbilhão
de gritos e arrepios.

terça-feira, 14 de abril de 2009

CONSIDERAÇÕES SOBRE A TARDE

Uma andorinha pousou
no meu poema na tarde
em declínio
onde os automóveis
( monstro de ferro)
carbonizam pulmões
com seus escapamentos
infames.
Há um sol de fôgo
crestado a tarde
nessa hora Mozart
não afinaria seu piano
e nem Picasso pintaria
miúras de três olhos.
Nas esquinas mendigos
assistem a vida
escorrer lânguida
enfadonha.
De pé á porta
do Café do Pina
asisto o suícidio
das horas
e o tempo
paraece coagular
a cidade.
Entre as árvores
o jardim
onde demônios
alados
( guardiães da tarde)
buscam alcançar
a rosa
para esmagá-la
a rosa
tão simples
tão meiga
tão dúctil.
Que espécie de tarde
é essa?
Que inventa demônios
para solapar a rosa?
Decisivo o sol
se põe sobre
a cúpula do Teatro Amazonas
e eu plantado
nesta esquina
de tempo
tento em vão
evitar os estertores
da tarde
tecendo costuras
de sol.

( Café do Pina era o local que nas décadas de 60 e 70 em que os intelectuais de Manaus se reuniam todas as tardes para a conversa que entrava pela madrugada. Lá estavam os poetas Jorge Tufic, Elson Farias, Farias de Carvalho, Luiz Bacellar, Anibal Beça, este começando, os contistas Artur Engracio, Aluisio Sampaio, Luis Ruas e o pintor Moacir Andrade, recentemente soube que o Café do Pina foi demolido pela Prefeitura de Manaus. Próximo ao café, na Praça da Policia, o Clube da Madrugada foi fundado por esses mesmos intecletuais.)

REMINISCÊNCIAS

Muitas vezes vi meu pai
sentado na cadeira de embalo
apascentando a vida
sua voz descia os degraus
do silêncio
e falava de pescarias
lagos e rios,
ao lado, contrita, minha mãe
desfiava o tempo
tecendo o seu crochê
e eu menino ouvia as histórias
embevecido.
Estes instantes estão
quilometros de distância
nos meandros da memória.

GOL


A bola resvala
na trave e entra
no gol
de longe
( não muito longe)
vê-se, estampada,
a angústia do goleiro.

O BÚFALO

O búfalo está bufalina
mente enfileirado
no pasto
na tarde em descensão.
E em seus gestos
serenos e pesados
rumina a bosta
de sua solidão.

LEITURA

Poetas e mendigos
se misturam
ao caos das ruas,
e nos estertores da tarde
o grito de suas gargantas
provoca calafríos
na cidade.

POETAS DA AMAZÔNIA





Max Martins é tido pelos críticos literários da região e do país como um dos poetas de muita inspiração. É um dos representantes mais atilados da poesia da Amazônia. Publicou várias obras entre elas, O Estranho, Anti-Retrato, Falangôla, Fala em Parenteses,Colagens e Manahu. Era paraense e morava em Belém onde faleceu no mês de março próximo passado.

CREPÚSCULAR




O olhar fixo na policrômia
do ocaso
na tarde em agônia
onde os vôos dos pássaros
( trajetórias aerodinâmicas)
exortam a criação divina
e redimem o dia.

POEMA MATINAL ( a Ernesto Penafort)

O ar da manhã
azul
e a algaravia
dos pássaros
na copa
das árvores
reanimam
a vida.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

POEMA RESIDUAL

Num céu estrelado
uma meia lua
vomita marés.

CÓPULA

O semen do tempo
espera o útero da noite
para fecundar
as horas.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A MULHER NO ESPELHO


Uma mulher
no espelho
poema carnal
no espelho
uma mulher
no espelho
forma & pose
no espelho
uma mulher
no espelho
seios eretos
no espelho
uma mulher
no espelho
rosto & gestos
no espelho
uma mulher
no espelho
nudez & beleza
no espelho
uma mulher
no espelho
vida & sexo
no espelho
e a flor sensual
brotando entre
as pernas
da mulher
no espelho.

PROCLAMAÇÃO

Me insurgi contra o verão
construi a primavera
em seus dominios,
a aurora me deu a cor
para compor meu poema
traçei roteiros de vida
para os gerânios ressequidos
e lutando contra os dragões
estivais,
proclamei a independência
da rosa.

( publicado no meu livro " No Silêncio das Horas")

VARIAÇÕES DO MEDO

Medo de sentir
de amar
de dar
de sair
de gritar
de denunciar.

Medo de tudo
do mundo
de mentir
de sorrir
de chorar
de escolher
de votar.
Provérbio iugoslavo:
- Diga a verdade
e saia correndo.

AMIGO E DEFENSOR DA AMAZÔNIA



No último dia 6, deixou o Comando Militar da Amazônia, o General Augusto Heleno( foto), um brasileiro verdadeiramente patriota, amigo e defensor intransigente da região Amazônica. Acredito ainda neste país por constatar que ainda temos em nosso exaurido capital humano, homens como o Gal. Augusto Heleno. Com sua saida do CMA a Amazônia ficou um pouco mais vulnerável. Obrigado General Heleno, a Amazônia e os amazonidas lhe agradecem de coração.

RELEMBRANDO OS GÊNIOS




Mário Quintana (foto) é elencado como um dos poetas mais importantes da literatura luso-brasileira. Era gaucho e faleceu em 1994. O poeta tem uma obra densa e aplaudida pela crítica literária. Publicou inúmeros livros entre os quais estão: Canções, Rua dos Cataventos, Sapato Florido, Batalha das Letras, Aprendiz de Feiticeiro e Espelho Mágico. Quintana é considerado um gênio da poesia universal.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O TEMPO CARRASCO

O tempo ( carrasco de nós) imobiliza
a anatomia dos gestos
e coagula o instante
em véspera de ocaso.
O tempo aborta vidas
projetos e destinos
e grafita a pele dos dias
enquanto o relógio
na parede gasta do sal dos anos
esquarteja as horas.

ESPÓLIO

A vida me reservou
este labirinto escuro
úmido e sem pouso
( herança precária)
onde o grito dos inválidos
escorrem pelos degraus
do silêncio
e se mistura a merda e o lôdo
dessa erma paragem.
Deus será que morri
ou sou a borra do capitalismo
selvagem?

CONSIDERAÇÕES SOBRE TEUS OLHOS

A leitura dos teus olhos
confunde o zodiaco
e os signos se perdem
no horóscopo de cada dia,
o brilho dos teus olhos
cria fractais congelados
que embotam o luar,
a mansidão dos teus olhos
ao silêncio das horas
se atrela
a espera do claro
acontecer de vácuo.

Um dia, amiga, colherei
uma lua madura
na paisagem dos teus olhos
para enfeitar minha janela.

O CÃO

O cão com seu focinho de universo
cheira a tarde e com suas patas de
tempo
pisa o lôdo e a merda dos burgueses
de Adrianópolis.

O cão e o homem
o cão humaniza o homem.

O cão com seu focinho de fogo
cheira a vulva da cadela no cio
antepasto para o banquete
lingual.


( Adrianópolis é o bairro da classe A de Manaus)

O VOTO

Nada como
uma eleição
atrás da outra
para nos livrar
dos políticos
cínicos
carreiristas
arrivistas
consumistas
do erário
bajuladores
dos mandatários.

O voto é arma
desarma
engôdo
promessas
inverdades
finalmente
sinceramente
voto é liberdade.

PRIMEIRA CONFERÊNCIA DEPOIS DAS FÉRIAS

Olhou a platéia.Enxugou o suor
do rosto, pigarreou e começou:

- Senhores, o Brasil é forte e pujante
graças ao empenho e a honestidade
de sua classe política.
Parou. Baixou a cabeça.
Silêncio sepulcral.
De repente surpreendeu
soltou uma gargalhada
que a sala toda
estremeceu.

A CORUJA




O vôo da coruja
incendeia os mistérios
da noite.
O pio da coruja
cristaliza o mêdo.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

POETAS DA AMAZÔNIA




Luiz Bacellar é considerado pela crítica especializada como um dos poetas mais importante da Amazônia brasileira. Com o livro "Frauta de Barro" em 1959, ganhou o premio Cidade do Rio de Janeiro, auspiciado pela Prefeitura daquele Estado. Publicou varias obras entre elas: Frauta de Barros, Sol de Feira, Quatro Movimentos, Crisântemos de Cem Pétalas, Sartori, Borboletas de Fogo e Quator. Foi um dos fundadores do Clube da Madrugada. Bacellar vive em Manaus.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM


( o poeta a amada, Jacira Bonetti e uma amiga na Praia da Guia, em Cascais,Lisbôa, Portugal.)

terça-feira, 7 de abril de 2009

POEMA

Os dias passam lentos
e cobram de minhas mãos
suadas e calosas
o gesto pronto que nunca realizei,
o rosto ( máscara de tempo e memória)
espelha a idade que nunca tive
a vida passa lesta e fria
pousada na minha carcaça
velha e adusta
destruindo vértebras
demolindo músculos.
Na hora última e amarga
da velhice
sómente o meu coração
espera ( contrito)
o momento exato
do salto no vácuo.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

SOLO DE OUTONO



( para o poeta marajoara Benny Franklin, cuja cultura e a inteligência engrandece á Amazônia)


As folhas caídas no chão adusto da praça
se transformam em pó, residuos outonais,
soprado pelos ventos que agitam
canteiros de gerânios e suavizam
os degraus do dia.
Um céu debruado de nuvens sépias
tenta ofuscar a luz do sol
no instante em construção.
Uma entonação de ária, solo imáginário,
percorre becos, ruas e avenidas
embevecendo ás vertebras da cidade
enquanto uma chuva fina intermitente
molha os cílios da tarde
e desbota a cor do meu silêncio.

domingo, 5 de abril de 2009

O BERRO DO MINOTAURO

Neste mundo engolfado pelo mais vil e odioso materialísmo, escarnecido pela abjeta ciranda do desamor, somos, todos nós, minotauros habitando labirintos de engôdo e dissimulação, sujeitos á vontade dos Teseus do poder. Vivemos em Cretas violentas e desumanas onde a dor, a desigualdade social perversa e a impunidade ultrapassam os limites da convivência humana. E nesta falsa Grécia só nos resta, a nós, minotauros desvalidos, berrar. Berrar e berrar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

CONTEMPLAÇÃO

Contemplo os vermes do dia
devorando os embriões da noite.

RELEMBRANDO OS GÊNIOS



Vinicius de Moraes foi dramaturgo, diplomata, poeta e compositor de expressão nacional e internacional. Faleceu no Rio de Janeiro em 1980. Seu primeiro livro," O caminho para a Distância," juntamente com o segundo," Forma e Exegese" fazem parte hoje de inúmeras antologias dedicadas ao poeta.
Foi um sonetista admirado. Na música com Tom Jobim, marcou um período aureo da MPB, produzindo sucessos que atingiram o gosto de apreciadores musicais de todas as partes do mundo.
É tido como dos corifeus da Bossa Nova. Vinicius de Moraes foi um gênio da poesia e da música.

INSTÂNTANEO DE VIAGEM


( a amada e o poeta em frente ao Mosteiro dos Jerônimos, em Belém, Lisbôa, Portugal)

FAVELAS



Favelas
ilhas suspensas
no ar da vida
labirinto de angústias
e mêdo
onde centauros
infames
abortam vidas
crescidas.
Favelas
ilhas erguidas
no ar das cidades
a desenhar mapas
de desespêro e miséria,
favelas
ilhas-cretas
brasileiras
onde a dor
inverga o riso
e o pranto desafina
o canto.
Favelas
ruelas a menstruar
vícios e violência.
Favelas
ilhas- cretas
no ar do tempo
e em cada barraco
há minotauros
famintos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

ALBUM DE FAMILIA


( o poeta aos dezessete anos)

POEMA DE AUSÊNCIA E TÉDIO

De dia te vejo sobre as ondas
deste mar sem tempo e memória
por onde este barco de velas rôtas
e sem rota
veleja fatigado de procelas.
De tédio e angústia
é feita esta tua ausência,
teu porto está longe
e não há retorno estabelecido
para esta viagem
mas todas as noites, amiga,
surges em sonhos no convés
deste barco saturado de salsugem
e todas ás noites, amiga,
galopas meus sonhos eróticos.

CANTIGA DE ALÉM DO SER

O canto que canto
é suave e puro
como água que bebo
ás vezes ardentes
como o sol que queima
minha pele.
As notas do meu canto
foram extraídas
da serenidade
da antemanhã
e do viço da primavera.
O canto que canto
é lesto e livre
como võo de pássaro,
fí-lo simples e emotivo
como a rosa que desabrocha
no dorso virgem da manhã.

GAIVOTAS




Gaivotas no céu do tempo
riscam a pele do vento
e os teus olhos nesta manhã
são lagos forjados
de amanhecidas luas
paisagem da memória
crestada de incertezas.

E o resto é apenas
residuo de brisas mansas
no contraponto do dia
onde gaivotas no céu do tempo
riscam mapas de esperança.

SOB O SOL DO ROÇADO




Todas as tardes meu pai me levava
ao roçado. O sol era abrasador
no mês de agosto gravetos e a terra
crepitavam sob o sol do roçado.
Meu pai plantava mandioca,batata
e vagens minha mãe e eu
colhíamos frutas,
espigas de milho morriam de viço
sob a quentura do sol do roçado.
Homens de escuros rostos e mãos rudes
(suarentos e apressados) semeavam
sob a quentura do sol do roçado.
Nestas tardes as horas eram lentas
e meus olhos se saturavam muito
sob a quentura do sol do roçado.

( roçado na Amazônia é plantação de subsistência).

SOLIDÃO - A POESIA DE JORGE MORAES

Solidão
companheira tão fria
solidão
companheira tão sem amor
para dar.
A solidão é sempre
como um túnel
escuro e profundo
que por mais luz
que haja
há sempre caminhos a seguir
e bifurcações existentes
e caimos sempre no braço longo
e encostamos a cabeça
e nos deixamos cair sempre
no corpo frio e sem carinho
da inseparável companheira
solidão.

( Jorge Moraes se inicia pelos caminhos da poesia. Mora em Porto Alegre,RS. Publicaremos outros trabalhos de Jorge neste blog).

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DOIS POEMAS A AMADA

I


O verso, mulher,
penetrará na tua alcova
e despertará o sonho lúbrico
da espera.
O caminho conduzirá
a aventura
a noite recolherá
o pranto meu
e então, juntos,
buscaremos o amor.

II


Os pássaros de bicos de sol
bicam a tarde onde o encanto
dorme na alcova das flores.
Teus dedos também
ferem a paisagem
desta tarde em declinio
onde se espera
a qualquer instante
o nascer de uma rosa.
Tudo passará, amiga,
mas essa tarde
e esses pássaros
hão de ficar
perpetuando tua
lembrança.

CAIS




No cais deserto
navios ancorados
vomitam
dos porões
enferrujados
náuseas
de antigas
viagens.

JORNAL

A máquina
imprime
sílabas
de angústias
pentagramas
de tédio
razão
e proporção
do cotidiano
amargo.

FUGA VESPERAL EM FIM DE TARDE

O fim da tarde
alcança o alpendre
da velha casa,
pássaros em fuga
traçam rotas
de regresso
no pálido acontecer
de vácuo.


E meu avô descansando
(numa cadeira de vime)
a fraqueza dos seus ossos
liberta de seu ventre adiposo
os gases de sua velhice.

NA FAZENDA



O curral de madeira roliça
os bois mugindo suas angústias
á sombra verde das mangueiras,
o rio serpenteando a mata
os latidos dos cães vigias da casa,
minha mãe debulhando milho
no terreiro, animados os galos
de bicos de sol ensaiavam
seus cocoricós.
meu pai pilando café.
Debaixo de um jambeiro
o ronco do meu avô na sesta
espantava os pássaros.

RELEMBRANDO OS GÊNIOS


João Cabral de Melo Neto ( foto), juntamente com Drumond e Bandeira formam a tríade de poetas brasileiros do modernismos e do pós-modernismo. Cabral produziu poemas de todas as formas e sentidos mas, nos poemas de cunho eminentemente sociais grajeou comentários os mais entusiásticos da crítica literária." Morte e Vida Severina" é o exemplo do que dizemos. Escreveu ainda "Pedra do Sono", "Os Três Mal-Amados", "O Engenheiro", "Psicologia da Composição", "O cão sem Plumas" e "Dois Parlamentos". Escreveu muita prosa também. Pernambucano e diplomata faleceu no Rio de Janeiro em 1999. João Cabral de Melo Neto foi um gênio da poesia brasileira e universal.