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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FRASE

" Desenrolei de dentro do tempo a minha canção. Não tenho mais inveja das cigarras: também vou morrer cantando".

Cecília Meirelles, poeta.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

POEMA

O sêmen do tempo
emprenha a tessitura dos dias
e os anos (vermes vorazes)
devoram a cada instante
a minha arquitetura óssea
meu corpo se decompõe
e me afundo num mar
de desencantos e depressões
sobram de tudo isso
a memória de um tempo distante
(pégadas nas areias da infância)
onde a felicidade me sorria
com seus lábios de nuvens
e dentes de sol
e esse caminhar alquebrado
pelas perdas solidão e mágoas
restaram também as palavras
com que construo poemas
que alimentam minha alma
no descompasso dessa jornada
pelas arestas sombrias do mundo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

TRENO PARA O FIM DO INVERNO

Há pássaros em mim
(nos cernes das palavras
soltas no ar dos meus
cabelos)
há pássaros na substância
verbal de Cintia Thome
há pássaros na arquitetura
poética de Nydia Bonetti
há pássaros na sutileza
do canto de Doroni Hilgenberg
e há pássaros nas locubrações
existencialistas de Benny Franklin.
Quando o inverno se for
e as manhãs gestarem
os embriões do silêncio
o sol cobrir de ouro
os jardins da cidade
esses pássaros sairão de nós
cândidos e tangendo liras
de sonhos para um concerto
de canto amor e louvor
celebrando a inauguração
da primavera.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A POESIA SUBIU O MORRO

a poesia subiu o morro
e nenhum tiro disparado
a poesia caminhou vielas
sinuosas e poluidas
visitou barracos encardidos
pela nefasta pobreza
a poesia viu a miséria
brotar das valas/esgôtos
(a céu aberto)
e a tristeza nos rostos
esquálidos
de homens e mulheres.
a poesia ouviu negros
brancos e mulatos
a poesia não discrimina
a poesia não tem cor,
uma multidão veio ouvir
a poesia falar
as verdades da vida
a poesia levou a todos
paz amor e força.
a poesia desceu o morro
e nenhum tiro disparado
e quando saiu do morro
a poesia deixou atrás de si
uma lua ecumênica
e um rebanho de estrelas
iluminando a favela.

ODE MINÍMA II

na penumbra do quarto
que reparto com sonhos
e fantasias,
o olhar perdido no teto
branco
recicla palavras amorfas
derramadas sobre as faces
dos amantes em coito
no cio do instante lúbrico,
e em rompante desfia
as fibras do silêncio
e penetra na geometria
dos sentidos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

NOTURNO ( para Benny Franklin)

rasgo as vestes da noite
e escancaro seus ludibrios
as ruas despetaladas
(são flores de angústia e medo)
somam seus desastres cotidianos,
nas casas encharcadas de tempo
as laminas das cortinas fechadas
escondem cópulas devassas
numa esquina obscura
um bêbado solitário apoiado
num fusca azul-fôsco
(expulsando o fígado pela bôca)
segura em uma das mãos
uma lua madura
depois sorri para um poste
enquanto a noite segue
sua rota de dúvidas e mistérios
pelo território da madrugada,

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

II POEMA Á AMADA

teu rosto ancora
no cais da tarde
e nos teus olhos
de mar
há vestígios claros
de silêncio
orbitando as palpebras
no instante estático
e mesmo sem escafandro
amiga e amor,
mergulharei no plácido oceano
dos teus lábios.

domingo, 6 de dezembro de 2009

UM POEMA DE NYDIA BONETTI

o pássaro

caminha sobre o muro, esquecido das asas

e pia

embora saiba todos os mistérios do canto

eu sou

o pássaro cinzento sobre este muro branco


( este poema me foi dedicado pela poeta)

sábado, 5 de dezembro de 2009

POEMA PARA AMADA

Douga teus gestos delicados
teu sorriso sereno e aberto
no ar morno da tarde
tecem as teias do meu silêncio
e a combustão dos teus olhos
acende as labaredas
dos meus pecados.

CARDÁPIO AMAZÔNICO

Peixe moqueado
na folha da bananeira
pimenta murupi
no molho de tomate
e um pirão de farinha
do Uarini.

BUCÓLICA

O campo molhado
de sereno matinal
e eu entre as árvores
apascentando rebanhos
de pássaros.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

HERANÇA

Deste mundo carcomido
pelo mais vil materialísmo
pelas ações dos espíritos
corrompidos,
restaram apenas em mim
( como herança lavrada)
a lucidêz dos poetas universais
as verdades vinda de Deus
e a serenidade dos olhos claros
da mulher amada.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CANÇONETA PARA FLAUTA TRANSVERSAL

A tarde dá sinais de ocaso
na linha do horizonte
uma solitária jangada
persegue a crista das ondas
como se quisesse arar
os latifúndios do mar.
Num céu de nuvens gris
gaivotas em vôos pandos
bicam a superficie das águas
( em beijos lestos)
como despedida da tarde
que placidamente agoniza,
enquanto para os lados
do Meirelles
os últimos raios de sol
tingem de ouro maduro
a enseada do Mucuripe.