sexta-feira, 31 de maio de 2019

VIAGEM

Viajo na paisagem do teu corpo
mergulho e garimpo perolas
no mar dos teus olhos,
e se o inverno me alcançar
com suas hordas incessantes
de frio,
me refugiarei na arquitetura
terna dos teus braços
e depois dessa viagem onírica
aporto na doce calmaria
do teu ventre.

TOCATA MATINAL EM TEMPO DE CRISÂNTEMO E GIRASSÓIS

Germinando no silêncio do jardim
um crisântemo espera o nascer do sol
para abrir suas rutilas pétalas
no ar pleno da manhã que vai raiar
enquanto o sereno da noite
orvalha um canteiro de girassóis
que continuam girando, girando
( mesmo sem a presença ainda do sol)
ao sabor dos ventos noturnos.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

UMA CICATRIZ VIVA


No ciclo da memória deixei uma porção do meu sorriso e miríades de palpitações, entre sistole e diástole, do meu coração, numa curva do Rio Juruá. Ah, como era verde e palpitante o meu vale. Meus olhos perscrutavam a várzea toda plantada de cultura de curto ciclo e se quedavam em observar cardumes coando ovas no fio da correnteza e nas solas do crepúsculo pássaros retornado aos ninhos para o descanso de suas asas fatigadas de voos intensos. Lá para os lados do remanso, botos em arroubos lúdicos saltavam, acrobaticamente, se despendido dos dias que já estavam em vascas. Ah, como era belo meu vale e meu rio. Como uma cicatriz viva e errante, o Rio Juruá ainda está em mim e todos os dias e todas às noites percorre a anatomia do meu corpo, indo da memória até o mar abissal de minha alma viajando em sua própria correnteza de saudade. E ele jamais sairá de mim.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

DIA DAS MÃES

Na primeira vez que te vi senti, nos desvãos de minha alma, que serias uma grande mãe. E não me enganei. Durante todo esse tempo, mais de quatro décadas, que andamos pelos caminhos da vida, atravessando, rios, lagos e mares, escalando montanhas, pisando em cardos e urzes, tens sido, Judite, a força que nos tem alimentados de animo para vencer as contendas neste mundo pantanoso, onde os tentáculos do mais cruel e mais desumano materialismo tentam, todos os dias, nos abarcar. Tens sido,amor, a bussola que nos tem norteados em todos os momentos da vida. Eu sou grato a ti e meus filhos e netos também.Tens inspirado, com teus gestos prontos, a poesia deste pobre poeta, garimpeiro de luas e luares e contra-mestre dos sonhos. Feliz Dias das Mães, Judite!!!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

DOIS ANOS SEM O LIRISMO DE BELCHIOR



Saio do meu casulo de silêncio para prantear o poeta Belchior que nesta manhã, foi levado pelas Walquirias e cavalgou com elas pelas pradarias do Nunca Mais, em busca dos eternos arrebóis. Poeta da musica, sobretudo, poeta da vida que a cantou com muita inspiração. Nunca mais veremos essa figura emblemática da musica dedilhar as cordas liricas de seu violão e construir canções que nos consolavam dos rigores do tempo e da vida. O cancioneiro nacional ficou um pouco pobre, Belchior está morto. Vivas estão suas canções lapidares cheias de palavras intensas e frases abissais. O poeta está morto. Nunca mais verá, com seu olhos de poemas, "as velas do Mucurípe saírem para pescar". Não mais será o mar de Copacabana e nem abrirá os braços no Corcovado. Não mais será "um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". Agora ungido em silêncio restará, apenas a memória e as canções que criou como ligação eterna entre o homem e a eternidade. Vá com Deus, poeta. O poeta está morto. Viva o poeta!!!!!!!
( Texto escrito quando do rito de passagem do menestrel em 30/04/2017 )

INSÔNIA DAS HORAS


.Uma lua madura aproveita a insônia das horas
para habitar os círculos dos teus olhos
e a noite desce com a lua e vem iluminar
as escamas desse rio por onde navegam
os teus mais belos sonhos
em tua barca de tempo e memória.
e na arquitetura lúbrica dos teus lábios
existe um sol fermentado
que queima de paixão e de ternura

quem ousa oscular tua boca em tempera.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

O TEMPO

O tempo passa célere e atrevidamente pelas trilhas do meu destino. Dizem que ele, este tempo carrasco das idades, tem o condão de esquecer ou apagar certas lembranças contidas em passado distante. Ele passa por mim pela minha vida e intercala algumas recordações embutidas nos desvãos da memória. Entretanto, desafio este tempo bobo me fazer esquecer o rio de minha infância, o Rio Juruá. Diz o poeta Pessoa, o Fernando da Tabacaria, que toda aldeia que se preza tem um rio. E o rio de minha aldeia é o Juruá. Este rio está impregnado em mim, nas minhas vértebras, no meu pensamento e entre sístole e diástole habita até hoje, este meu velho coração. De seu caudal foi tirada a água que me batizou. Basta fechar os olhos para vê-lo imponente, com seus remansos belos e silentes, com seus rebojos em fúria, invadindo epicamente a várzea inundando-a com seu húmus fertilizante e com sua lamina de correnteza abrindo o ventre da selva selvática em busca de sua destinação. Não, o tempo não faz esquecer e nem apaga as coisas belas da vida. “ Falam que o tempo apaga tudo. Tempo não apaga, tempo adormece”. Palavras mais que atiladas de Queiroz, a Raquel de O Quinze.

A MULHER DO SONHO

Eu a vi. Era uma mulher andando no meu sonho vestida de sol e caminhava pisando em musgos e liquens encrustados nas pedras do caminho. Le...