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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

POEMA

A noite se perde
entre o show da boite
e o último trem
e na anatomia
do relógio
o silêncio entala
as horas
na garganta
do tempo.

FLORAL

Florada nas serras
margaridas invadem
os campos silvestres
violetas desabrocham
nos jardins das cidades
perfumes de flores
entorpecem o ar
a primavera explode
em aromas e cores.

CICLOVIA

Por mais que pedale
custa-me alcançar
o fim desta via
entre o teu amor
e o meu
há uma distância
em anos-luz.

sábado, 24 de outubro de 2009

POEMA A GAGARIN

O foguete partiu
e rasgou os limites
da angústia
e o cosmonauta
transvertido em Deus
ante o olhar
atônito da rua
beijou a boca
bêbada da lua.

Farias de Carvalho

REENCONTRO

Ontem reencontrei
o poeta Farias de Carvalho
estava sentado
em um dos velhos
bancos do Café do Pina
tinha no semblante
o mesmo ar de candura
nos olhos a serenidade
dos espiritos iluminados.
De repente o vejo levantar-se
e recitar Poema a Gagarin
sua voz era tão densa
e forte que acordei.

( o poeta Farias faleceu faz mais de dez anos e o Café do Pina, no centro de Manaus, os predadores urbanistas o fizeram sumir da geografia da cidade)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NYDIANAS

O corpo nu
da mulher
na televisão
acende delírios
e os olhos do menino
arregalam desejos,
no sofá (na penumbra)
o sexo baila
agilmente
nas mãos
infantís.

NYDIANAS

No interior do quarto
o relógio quebra
a harmonia do descanso
e as horas oxidam
as engrenagens
do tempo.
Lá fora o sol
espalha escamas
de fogo
nos labirintos
da cidade.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

NYDIANAS

Vou plantar
poemas no solo
dessa manhã
sem véspera
espalhar sementes
de silêncio
nos guetos urbanos
e esperar
que os homens
plantem em seus
áridos corações
a erva do amor
e da compaixão.

NYDIANAS

Prêso as amarras
da ânsia e da angústia
o tédio tolhe
(pouco a pouco)
meus dias
preciso urgente
de salvo-conduto
para ir e vir
na fronteira
desse amor
louco.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

NYDIANAS

No íntimo
das sílabas
(soma de falanges)
consoantes e vogais
se tocam
se copulam
e constroem
o poema.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

NYDIANAS

No vázio
inquietante
da sala
o pó das horas
escorre lento
pelas paredes
vetustas da casa
e embota
a fotografia
dos mortos.

NYDIANAS

Hoje pousei
meu olhar
nos meninos
pobres
de minha rua
são os magros
meninos
são os sujos
meninos
mas são tão
alegres esses
meninos mortos
a fome
os fêz catadores
de sobras
nas lixeiras
nunca foram
a escola
mas são
psicologos
a alma
da miséria
só eles
conhecem,
eu que também
sou pobre
ao lado desses
meninos
eu que ainda
tenhos lagrimas
nos olhos
sou ríco.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ULOS

Descubro-me na aridez canicular do tempo
onde hectares de sonhos frustrados
( sementes nunca semeadas)
permanecem no silêncio sazonado
do santuário inconsútil da memória.
É inútil revolver o passado
e mastigo agruras e solidão
percorrendo trilhas ínvias
dessa cidade morna desvirginada
pelo egoísmo e ambição
dos que fazem do mundo
arena de embates infames.
Refugio-me no poema
mas o poema é um rio
desaguando incasto
no oceano do cotidiano
imprevisível e amargo.
Aposso-me do tédio das ruas
na liturgia cruel dos dias,
misturo-me ao caos urbano
pejado de delirios e insônias
( soma dos meus pecados)
e suporto a vida olhando
os olhos serenos e castos
da mulher amada na fotografia
colada á parede deste quarto
abrasivo e silencioso
e consigo sobreviver
em meio de tantos mortos.


( após ler o poeta beatnick Allen Ginsberg)