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sexta-feira, 10 de julho de 2015

FRATURA


 Dispo minha sombra
( sem querer)
na tarde de sol e ventos
enquanto no pensamento
um poema pede para nascer

quinta-feira, 9 de julho de 2015

OCASO


No fim da tarde de verão
uma nuvem pinta de branco
o sangue do por do sol...
e neste instante nasce o poema
das asas de um pássaro mudo
que desafia em voos acrobáticos
a anatomia dos ventos

EU E O PÁSSARO ( MINICRÔNICA )


Na casa da infância havia uma gaiola aprisionando um pássaro de asas negras, peitoral branco e na cabeça um tufo vermelho vivo, que lhe dava um ar de figurinha cardinalícia. Todas as manhã eu acordava com aquele cântico trinado e plangente do pássaro, pulsando por liberdade. Havia lido num velho almanaque Capivarol, que os seres nascem livres e têm que permanecer livres. Um dia subi numa cadeira abri a gaiola e o soltei. Vi o pássaro, em voo apressado, cruzar a janela e pousar num galho de tamarindo. Olhou para trás como querendo agradecer meu gesto e em seguida, voou definitivo para a liberdade. Ninguém da casa da infância soube que fui o libertador da ave. Deste dia em diante acumulei uma profunda ojeriza por gaiolas e zoológicos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

CANTIGA DE QUASE DESALENTO


Não mais exultarei com as nuances do por do sol
e não mais pintarei meus sonhos com as cores do arrebol
não me importarei se a noite vier caiada de sombras...
nada direi se o outono despejar folhas mortas
no verde solitário das alfombras
não farei mais versos com cintilo de luas
e não mais esperarei a manhã renascer na rua,
e ainda pedirei as nuvens que não abasteçam
mais de água o orvalho da madrugada
para que a manhã renasça plena e enxuta.
Só de uma coisa não abdicarei, coisa mais sagrada:
o sublime direito de contemplar os olhos
serenos e inebriantes da mulher amada.

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