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quinta-feira, 30 de abril de 2015

COMO ABATER A TARDE COM UM POEMA


A chuva caindo molhando o ventre da cidade
O sol descambado  para o ocaso da tarde
Os pássaros de regresso a solidão dos ninhos
O rumor dos automóveis , monstros de aços,
envenenando  as ruas com seus escapamentos infames,
o tempo escravizando as horas  na arena do relógio
a vida se explicando em teoremas
e na penumbra do quarto de sonhos e fantasias
os seios da mulher amada saltando da seda da camisola
com encanto e ousadia,
enquanto a tarde em anemia profunda
morre abatida por um simples poema. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

OS POETAS

Como os pássaros os poetas nascem e morrem cantando.
 

VÁCUO



O silêncio rompendo  a inquietude da cidade
praças desertas  em dias de abandono
espantam   a celebração dos pássaros
 ruas  sombrias e esquecidas
ajudam as horas a cansar o tempo
enquanto outono  borda  o chão
com as cores das folhas caídas
meu olhar vislumbra tudo isso e segue
e esse acontecer vácuo  me persegue!

AS SOMBRAS DO OUTONO



Ontem me enrolei nas sombras do outono
esqueci que um lua velha e quase opaca
flutuava  num céu de nuvens brancas e pesadas
carregadas de águas de antigas chuvas
e tentava iluminar o território sombrio da noite,
olhei para a praça deserta  e vi velhas
acácias derramando  sementes hermafroditas
no chão de musgo e liquens nas calçadas.
Pedi  a noite que não manifestasse
os seus ludíbrios  e os seus delírios
para que a manhã renascesse luzidia e casta
nessas ruas  ruídas de poluição e desastres,
vir a madrugada molhada em orvalho surgir
encharcando a extensão da varanda
esperei  o silêncio chegar no quarto de sonhos
me enrolei nas sombras do outono e fui dormir


 

 

 

 

terça-feira, 28 de abril de 2015

O MENINO E O VELHO


Faz tempo que havia dentro deste velho
 um menino cheio de animo e que tinha o mundo como um desafio
 este menino coava o inverno quando as chuvas
 molhavam a superfície  do rio
 encantava pássaros nas manhãs plenas de verão
 colhia polens de flores para fertilizar a lavoura da tarde em floração
 E o menino pensava que as palavras poderiam mudar o mundo
 mas incorreu em enganos
 foi devorado pelo capitalismo selvagem
 esquizofrênico e desumano
 e o que restou  daquele menino cheio de esperança
 foi este velho silencioso,amargo e cansado
revolvendo  os ácidos escombros do passado.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

TRAVESSIA


Estou atravessando o rio do meu tempo
e nem sei  se conseguirei  alcançar
a outra margem
 ninguém tem certeza disso
nem mesmo a vida me dá esse crédito
mesmo assim  continuo nadando, nadando
para ver se encontro do outro lado rio
a aurora de minhas memórias.

TREM NOTURNO PARA CAUCAIA ( MINICONTO)


Um dia tive um sonho quase surrealista. Sonhei com uma mulher vestida de lua, tinha os cabelos negros como as asas da graúna e na mãos trazia uma flor amarela. Seus movimentos eram delicados e um floco de nuvens aureolava sua cabeça. Ela não andava, levitava pelas calçadas e procurava algo que não tive a percepção de saber o que era. Era uma mulher linda. Acordei sobressalto. Dias depois quando esperava o trem noturno para Caucaia, olhando a multidão que se comprimia na plataforma da estação férrea, vi, encostada a um poste de luminária , uma mulher alta, cabelos negros, tinha os olhos verdes como as águas do mar de Iracema e nas mãos conduzia mesma flor amarela. Reconheci de imediato ser a mulher do meu sonho. Era mais bonita ainda. Seu porte assemelhava-se a Ana Magnani, aliás, muito mais bonita e inebriante que atriz italiana. Vestia uma túnica com paisagens outonais e como no sonho, procurava com os olhos alguém na multidão. Quando o trem chegou houve uma correria frenetrica e os meus olhos perderam a imagem daquela mulher. Já no interior do trem a procurei em todos os vagões e não a encontrei. Sumiu. Será que tive uma alucinação momentânea? Me perguntei. Deste dia em diante nunca mais vi a mulher do meu sonho a esperar o trem noturno para Caucaia.
Contei esse fato ao meu amigo Pacheco, o português do restaurante “ O Tigre Cego”, revelando ser tudo verdade e ele com aquele sotaque alentejano me disse: - Tivesse foi uma miragem, gajo!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

CANTO RESIDUAL XI


 O sol constrói seu ocaso
enquanto a tarde
rege a opera dos pássaros.

CANTO RESIDUAL XII


No escuro desta noite
decifro com uma palavra
o enigma que habita teu olhar.

CANTO RESIDUAL XIII


Meu coração hospedeiro
vai dar asilo de ternura
ao teu coração guerrilheiro

CANTO RESIDUAL XIV


Basta um segundo
do teu sorriso
para inaugurar...
minha manhã.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

POEMA

Enquanto a noite ainda dormia
no regaço do arrebol
vi um pássaro com seu bico
de sonhos
acender o lume do sol.

METÁFORA III


Quando se fizer a última colheita
de outono na lavoura arcaica do tempo
eu te esperarei com os meus olhos ávidos de te ver,
e quando as primeiras chuvas prenunciarem
a emboscada do frigido inverno
eu te esperarei na casa da saudade
e quando chegares desses caminhos gastos
sairá de minha boca um poema
que transvertido em nave imaginária
orbitará a aureola dos teus seios castos.

domingo, 5 de abril de 2015

QUINTESSÊNCIA


Um dia o vento norte
entrará pela porta de minha casa
e me libertará do tempo de espera...
e me conduzirá sobre o ar da manhã
além do horizonte onde a primavera
nunca vai embora e o sol é apenas uma tênue
luz cortando o dorso dos rebanhos de nuvens
que cavalgam as rotas do imponderável.
Então me despirei de desejos e fantasias
térreas e orbitarei com minha nave de brumas
novas e candentes galáxias de sonhos.
 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

POR DO SOL


Nos últimos estertores
do dia
o sol pinta de ouro...
as escamas do rio
com a cumplicidade
de um coqueiro
silente e esguio.

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  • Julio Rodrigues Correia
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