terça-feira, 31 de agosto de 2010

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO POÉTICO


Eu te queria viva e não morta para que teus poemas soltos
pudessem invadir ruas e avenidas e mostrar as elites
o enorme tumor social que carcome as vísceras
dos desválidos da vida e não da sorte,
eu te queria viva e não suicida para que teu discurso poético
fosse ouvido pelos que fabricam as dores do mundo
que tuas palavras as vêzes caústicas e as vêzes malditas
penetrassem nos tímpanos surdos dos governantes do dia e os despertassem
do sono letárgico que se encontram dormindo em berço esplendido,
finalmente te queria viva e intensa capaz de suavizar, com teus poemas
carregados de sentimentos, revolta e esperança, a vida dos que vivem
soterrados no lôdo e na merda das periférias abandonadas
comendo as raspas dos banquetes nababescos
dos bem-aventurados do capitalismo selvagem e do parasitísmo estatal.


( a memória da poeta Ana Cristina Cesar (foto) . Ana sucidou-se em 1983)

sábado, 28 de agosto de 2010

DOMINGO NA PRAIA DO FUTURO ( para poeta Betha Mendes)

O sol estende seu sudário
de fogo na praia branca
o mar na sua intermitência
vomita espumas e marolas
de antigas marés,
vago as brisas se acomodam
no colo dos coqueiros
deitadas nas areias,seminuas,
mulheres bonitas lavram
a escritura erótica da manhã.
.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O CAOS E A NÁUSEA




Sobre minhas palavras
os escombros do dia
um temporal indesejado
surpreende um pássaro
numa arvore desfolhada,
perto de mim o terminal
revela o caos urbano
e me causa náuseas.
Na longa avenida
a tarde aos pedaços
se rende aos caprichos
da noite que avança
pelas ruas geladas,
encosto-me a uma
pilastras da estação
e fico triste
perdi o último trem
para Pasárgada.

(dedicado a poeta Tânia Souza)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ÍNTIMO MADRIGAL


a luz dos teus olhos claros me excita
viajo aos surbúbios do teu corpo
descubro lugares nunca antes
navegados. Absorvo o teu cheiro
de mulher amante no cio
osculo teus lábios capitosos
como um lôbo faminto,
sinto tua respiração arfar
( cicias palavras sem nexo)
e me perco no labirinto
voluptuoso do teu sexo.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

POEMA

Os passos de minhas sandálias
pisam os cílios do tempo.
Uma brisa acústica, em sôpro,
parece assobiar uma ária
de uma canção de outono
esquecida nos escombros
da memória e desperta
os duendes do meu silêncio.



( para o grande poeta cearense José Telles, autor de "Solo das Chuvas")

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DOIS MOVIMENTOS PARA JUDITE

1

Antes, Judite, minha vida era opaca
simplismente vazia e sem opção
e quando chegaste numa manhã de agosto
trazendo no branco rosto
vestígios de luas e auroras
eu ardendo em verão
fui ao meu quintal de tempo
e sepultei minha solidão.

2
Na memória recordações
dos passeios noturnos
pelas margens do corrego Mindu
onde sentados contavámos
estrelas na imensidão azul
confessando pecados e juras
a uma lua maiúscula boiando
num céu de nuvens brancas
esgarçadas e céleres.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ENGENHARIA & POÉTICA (para Nydia Bonetti)

poeta e engenheiro
aliados no mesmo
cálculo estrutural de rimas
e de colunas preenchidas
pela argamassa
da vida cotidiana
a régua traça as retas
e as curvas
o verso destila a forma
na construção
da palavra
o esquadro descobre
vãos e pilares
e a poesia descobre
agruras da vida
nua e crua
(sem disfarces)
flutuando nos andaimes
do tempo e dos espaços.

EROTICA

Entre as tuas tenras coxas a erva da sedução narcotiza meus gestos abala meus sentidos e minhas mãos se perdem no labirinto terno e obscuro ...