quinta-feira, 2 de maio de 2019

O TEMPO

O tempo passa célere e atrevidamente pelas trilhas do meu destino. Dizem que ele, este tempo carrasco das idades, tem o condão de esquecer ou apagar certas lembranças contidas em passado distante. Ele passa por mim pela minha vida e intercala algumas recordações embutidas nos desvãos da memória. Entretanto, desafio este tempo bobo me fazer esquecer o rio de minha infância, o Rio Juruá. Diz o poeta Pessoa, o Fernando da Tabacaria, que toda aldeia que se preza tem um rio. E o rio de minha aldeia é o Juruá. Este rio está impregnado em mim, nas minhas vértebras, no meu pensamento e entre sístole e diástole habita até hoje, este meu velho coração. De seu caudal foi tirada a água que me batizou. Basta fechar os olhos para vê-lo imponente, com seus remansos belos e silentes, com seus rebojos em fúria, invadindo epicamente a várzea inundando-a com seu húmus fertilizante e com sua lamina de correnteza abrindo o ventre da selva selvática em busca de sua destinação. Não, o tempo não faz esquecer e nem apaga as coisas belas da vida. “ Falam que o tempo apaga tudo. Tempo não apaga, tempo adormece”. Palavras mais que atiladas de Queiroz, a Raquel de O Quinze.

terça-feira, 30 de abril de 2019

DOIS ANOS SEM O LIRISMO DE BELCHIOR


Saio do meu casulo de silêncio para prantear o poeta Belchior que nesta manhã, foi levado pelas Walquirias e cavalgou com elas pelas pradarias do Nunca Mais, em busca dos eternos arrebóis. Poeta da musica, sobretudo, poeta da vida que a cantou com muita inspiração. Nunca mais veremos essa figura emblemática da musica dedilhar as cordas liricas de seu violão e construir canções que nos consolavam dos rigores do tempo e da vida. O cancioneiro nacional ficou um pouco pobre, Belchior está morto. Vivas estão suas canções lapidares cheias de palavras intensas e frases abissais. O poeta está morto. Nunca mais verá, com seu olhos de poemas, "as velas do Mucurípe saírem para pescar". Não mais será o mar de Copacabana e nem abrirá os braços no Corcovado. Não mais será "um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". Agora ungido em silêncio restará, apenas a memória e as canções que criou como ligação eterna entre o homem e a eternidade. Vá com Deus, poeta. O poeta está morto. Viva o poeta!!!!!!!
( Texto escrito quando do rito de passagem do menestrel em 30/04/2017 

OPUS DA MANHÃ

Quando sol começava a semear incêndios nas solas do horizonte desprovido, ainda de nuvens, um pássaro em tom sustenido apressa o canto para inaugurar os alicerces do dia e tuas mãos,amor, em tear de sonhos, fia os fios da luz solar para aclarar o ventre das ruas ainda sombrias nas bordas do outono, enquanto um folha verde sacia sua sede com gotas do orvalho da manhã renascida dos escombros da noite. Opus da manhã, o sol, enfim, incendiou o dia.

terça-feira, 23 de abril de 2019

AS SETES LUAS


Quando as sete luas passarem
e o tempo mostrar a rota da primavera,
colherei flores no campo para te oferecer
catarei fiapos de sol para amornar
às minhas mãos em gestos de espera
e mostrarei o melhor sorriso
para ávido, ansioso te receber
no mesmo alpendre que um dia te viu
partir com chispas de estrelas nas mãos.
Tua distancia e ausência me incorrem
em ânsias e angustias numerais,
mas tudo isso, amiga vai findar
com vestígios de tua chegada
pois " sete luas passam rápidas demais ".

sábado, 20 de abril de 2019

CANTO I

O tempo deletou a tarde.
A noite abriu seus abismos de sombras
para encobrir seus desastres, 
um vento desgarrado de seu rebanho
espatifou-se sobre a janela da antiga 
casa em desconstrução.
Tentei varrer a soma dos meus pecados
para debaixo do tapete
mas o remorso alter-ego de minhas culpas
não deixou quando a noite já tinha
engolido as vísceras do dia,
e então, tive que sair do poema.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

OCASO

O tempo gera ocaso
( sem alarde)
no útero da tarde.

A CASA

A casa é velha. Muito velha, No telhado o tempo plantou musgo e líquens, na fachada os anos desconstruiu sua arquitetura. Em suas laterais o capim- navalha escondeu seu jardim em ruínas. Um muro em decomposição albergado por dois portões de ferro inteiramente oxidados cercam sua entrada. Olhei a casa ou o que restou dela com os olhos cheios de lágrimas. Então perguntei ao homem idoso relaxado na cadeira de embalo, pitando um cigarro confeccionado com fumo de rolo. O sr. sabe que eram os donos deste imóvel? E o velho respondeu - Já faz muito tempo. Quase não me lembro das pessoas que ai moravam. Só lembro de um menino negro de nome Julio que morava nesta casa. Curioso perguntei: - E agora o que há no interior desta casa arruinada? E o velho me respondeu: - Moço, só memórias. Memórias.

EROTICA

Entre as tuas tenras coxas a erva da sedução narcotiza meus gestos abala meus sentidos e minhas mãos se perdem no labirinto terno e obscuro ...