domingo, 21 de outubro de 2018

E COMO ERA VERDE MEU VALE


O meu vale era verde. Muito verde. Verde como uma pedra de jade. E neste teatro verdejante passei uma parte de minha infância me acordando nas madrugadas da vida para esperar o raiar das auroras. Adorava estes instantes de beleza e policromia que inebriavam minha alma. Exultava em ver o sol com seu falo de fogo romper o hímen das manhãs amazônicas. Espetáculos fascinantes que embotavam de cores os olhos de menino que eu era. A outra metade da infância foi de aprendizado. Aprendia todos os dias, com os ribeirinhos, quase índios, os mistérios do rio. Da força de sua correnteza, dos mistérios dos grandes rebojos, a psicologia das piracemas, a beleza e mansidão dos remansos e o regime das águas. Aprendi a nadar com os peixes e a cantar com os pássaros. O velho Josias me ensinou os mistérios da mata, de como nunca me perder na floresta. Conheci e aprendi com ele todos os cantos do pássaros do lugar. Quando era noite de lua cheia nos reuníamos na varanda do barracão para escutar o velho Macambira contar historias. Eram narrativas de botos sedutores, de Mapinguari, de Mula-Sem- Cabeça e outras lendas horripilantes do repertório do velho caçador. Na frente do barracão o rio corria absoluto cortando o ventre da selva selvática com a lamina de sua correnteza. Mundo verde tão pequeno, mas tão meu. Hoje sinto uma imensa saudade a percorrer as latitudes do meu corpo. E aquele menino que se encantava com as auroras e o levantar do sol das manhãs, onde ele anda? Ah, aquele menino atingiu um tempo que os hipócritas chamam de “ o melhor tempo “. Aquele menino hoje é um velho, cuja única diversão é colecionar crepúsculos .

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

HEY JUDE


Nestes dias em que a primavera
matiza as fimbrias do tempo
com as cores de suas flores,
peço emprestado o mar dos teus olhos
para navegar os meus sonhos.

terça-feira, 24 de julho de 2018

CONVITE AOS LÍRIOS


Quando os lírios ornamentarem
as campinas
da estação com suas flores olentes
e cândidas te convidarei para juntos
passearmos por esses campos,
ouvindo a sonata dos pássaros em cio
e tecendo costuras de sol.
E quando os Ipês,em floradas,
mostrarem aos amantes da primavera
suas belezas inebriantes,
me inventarei astronauta
e com minha nave de sonhos,
penetrarei no microcosmo do tempo
e abrirei o bau do passado,
tentando resgatar o elo perdido
de minhas memórias.

Lírica


Chegaste da jornada onírica/ pelos círculos do tempo/chegaste como os ventos que invadem janelas/ sem permissão/trouxeste nos cabelos uma flor amarela/ e nas mãos vernizes de luas
/e com chispas de sol nos olhos/ atravessaste a cidade/ e eu ardendo em chamas / te reencontrei na fronteira da tarde/.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

DE SOMBRAS E TEMPO


Essas sombras margeando
as trilhas dessas galaxias subterrâneas,
as horas limando as moléculas do tempo
deprimem o instante seminal
enquanto a vida coleciona abismos.
Mas nem tudo é angustia e aflição
nem tudo está perdido
ainda há um tênue cintilo de sol
na senda escura da solidão.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

VESTÍGIOS I

Os ventos trazem vestígios
de tua presença na rua
salpicada de sol,
enquanto a tarde prenhe
de pássaros e cantos
desperta o sono dos jardins.
.

sábado, 9 de junho de 2018

TRÊS INSTANTES, A AMADA E O POEMA


Nesta manhã de sol mineral
gestada de uma vértebra
do tempo,
ventos atrevidos se revoltam
na ribeira
e agitam as águas deste mar sem fim
enquanto um beija-flor viril tenta polinizar
velhas roseiras
na solidão floral deste jardim.
E chega a tarde de sol, cerebral,
e me invento em asas
e como pássaro de sonho tento voar
com a intenção de pousar
na paisagem idílica do teu olhar.
E então, chega a noite insone e numeral
trazendo sombras invasoras e degastadas
e então, vou à lavoura de luares
e colheito falanges de luas
para iluminar o sono da mulher amada.

EROTICA

Entre as tuas tenras coxas a erva da sedução narcotiza meus gestos abala meus sentidos e minhas mãos se perdem no labirinto terno e obscuro ...