Repudio qualquer contagem do tempo de minha velhice. Quando me aposentei proclamei a inutilidade dos relógios e a falência dos calendários. Quero seguir envelhecendo livre, solto como um corcel selvagem cavalgando pelas pradarias do tempo...
Um dia tive um sonho quase surrealista. Sonhei com uma mulher vestida de lua, tinha os cabelos negros como as asas da graúna e na mãos trazia uma flor amarela. Seus movimentos eram delicados e um floco de nuvens aureolava sua cabeça. Ela não andava, levitava pelas calçadas e procurava algo que não tive a percepção de saber o que era. Era uma mulher linda. Acordei sobressalto. Dias depois quando esperava o trem noturno para Caucaia, olhando a multidão que se comprimia na plataforma da estação férrea, vi, encostada a um poste de luminária , uma mulher alta, cabelos negros, tinha os olhos verdes como as águas do mar de Iracema e nas mãos conduzia mesma flor amarela. Reconheci de imediato ser a mulher do meu sonho. Era mais bonita ainda. Seu porte assemelhava-se a saudosa Ana Magnani, aliás, muito mais bonita e inebriante que atriz italiana. Vestia uma túnica com paisagens outonais e como no sonho, procurava com os olhos alguém na multidão. Quando o trem chegou houve uma correria frenetrica e os meus olhos perderam a imagem daquela mulher. Já no interior do trem a procurei em todos os vagões e não a encontrei. Sumiu. Será que tive uma alucinação momentânea? Me perguntei. Deste dia em diante nunca mais vi a mulher do meu sonho a esperar o trem noturno para Caucaia.
Contei esse fato ao meu amigo Pacheco, o português do restaurante “ O Tigre Cego”, revelando ser tudo verdade e ele com aquele sotaque alentejano me disse: - Tivesse foi uma miragem, gajo!
4Você, Christina Vermeulen, Zélia Sales e 1 outra pessoa
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